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sábado, 1 de junho de 2013

DESPERTA, TU QUE DORMES

SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)
DESPERTA, TU QUE DORMES

Pregado no domingo, 4 de abril de 1742, perante a Universidade de Oxford.
“Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te alumiará”.
(Efésios 5.14)
DISCORRENDO sobre estas palavras, pretendo, -com o auxílio de Deus,
1º— Descrever os adormecidos, a quem as palavras do texto se dirigem;
2º— Corroborar a.exortação — “Desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos”; e
3º— Explanar a promessa feita aos que despertam e levantam-se: “Cristo te alumiará”.

I

1. Primeiramente, tratemos dos adormecidos aí citados. De sono se entende ser o estado natural do homem, mergulhado naquela profunda inconsciência de alma; na qual o pecado de Adão infundiu tudo quanto havia em suas entranhas: a indolência, a preguiça, a incompreensão, a insensibilidade no tocante à sua condição real, estado este que é próprio de todo homem que vem ao mundo, perdurando até que a voz de Deus o desperte.
2. “Aqueles que dormem, dormem de noite”. O estado natural do homem é de profunda obscuridade, lembrando a condição segundo a qual “as trevas cobrem a terra e noite densa envolve o povo”. O pobre pecador ainda não despertado, qualquer que seja a extensão dos conhecimentos que possua acerca de outras coisas, não se conhece a si mesmo: neste sentido “ele nada sabe do que devia saber”. Não sabe que é um espírito decaído, cuja necessidade primacial, no mundo presente, é reerguer-se de sua queda e recuperar a imagem de Deus, segundo a qual fora criado. Não percebe a falta da única coisa necessária, isto é, a mudança interior de alcance universal, aquele “nascer de cima” simbolizado pelo batismo, que é o início da renovação total; aquela santificação de espírito, alma e corpo, “sem a qual ninguém virá a
Deus”.
3. Carregado de todas as enfermidades, julga-se, todavia, em perfeita saúde. Encarcerado em prisões de aço e de miséria, protesta estar em liberdade. Ele diz: “Paz, Paz!”, enquanto o diabo, como “um forte homem armado”, está de plena posse de sua alma. Dorme placidamente, descansa, enquanto o inferno se move sob seus pés para lhe vir ao encontro; enquanto o abismo, de onde ninguém jamais regressa, abre suas fauces para o tragar. Arde o fogo em torno de si, e ele não o pressente; queima-o, e apesar de tudo ele nada percebe.
4. Por adormecido entendemos, pois, (e prouvera a Deus que todos nós o compreendêssemos do mesmo modo!) o pecador satisfeito com seus pecados; contente com o permanecer em seu estado de queda, com o viver e morrer sem nunca refletir a imagem de Deus; o que ignora sua enfermidade e o remédio único que o pode curar; o que nunca foi advertido ou que nunca atentou para a voz de Deus que o aconselha a “fugir da ira vindoura”; o que jamais notou que estava exposto ao perigo do fogo do inferno ou que jamais clamou do mais profundo de sua alma: “Que devo eu fazer para me salvar”?
5. Se o que dorme não for exteriormente viciado, seu sono será, habitualmente, o mais profundo de todos: quer seja ele do espírito de Laudicéia, “nem frio, nem quente”, mas um pacífico, racional, inofensivo, prestimoso adepto da religião de seus pais; quer seja zeloso e ortodoxo e, “conforme a mais rigorosa seita de nossa religião”, viva como “um fariseu”, isto é, de acordo com o perfil farisaico da narrativa néotestamentária; quer seja como o que a si mesmo se justifica, trabalhando por estabelecer sua própria justiça como fundamento de sua aceitação por parte de Deus, — profundo lhe decorrerá o sono!
6. Assim é aquele que, “tendo a forma da piedade, nega o poder dela”; e ainda provavelmente a ultraja, onde quer que ela se manifeste, qualificando-a como simples extravagância e pura ilusão. Entretanto, o infeliz enganador de si mesmo dá graças a Deus porque “não é como os demais homens, que são adúlteros, injustos e ladrões”: não, ele não faz mal a ninguém. “Jejua duas vezes por semana”, usa de todos os meios de graça, é assíduo à igreja e aos sacramentos e “paga o dizimo de tudo quanto tem”; faz todo o bem que está em suas mãos fazer; “no tocante à justiça da lei”, ele é “irrepreensível”; nada lhe falta de piedade, mas de poder; nada lhe falta de religião, mas de espírito; nada lhe falta de cristianismo, mas de verdade e vida.
7. Não sabe, entretanto, o cristão desse tipo, que, por mais altamente estimado que possa ser em meio dos homens, é, todavia, abominação à vista de Deus e herdeiro de todos os ais com que o Filho de Deus denunciou ontem, verbera hoje e estigmatizará para sempre os “escribas e fariseus hipócritas?” É ele que “limpa o exterior do copo e do prato”, deixando seu interior cheio de roda imundície. “Uma enfermidade horrível pesa ainda sobre ele, de sorte que seu interior é deplorável”. Nosso Senhor com propriedade o compara a um “sepulcro branqueado”, que “parece formoso por fora”, mas, não obstante a, boa aparência, “está cheio de ossos e de toda podridão”. Os ossos, a bem dizer, não estão secos; os nervos e as carnes recobrem-nos, e exteriormente os envolve a pele; neles não há, porém, sopro; nada do Espírito do Deus vivo. E, “se alguém não possui o Espírito de Cristo esse tal não é dele”. “Vós sois de Cristo, se é que o
Espírito de Deus habita em vós”; mas, se isto não se dá, Deus sabe que estais ainda mortos.
8. Este é outro característico do adormecido de que fala o texto: ele habita o mundo dos mortos, embora não o saiba. Está morto para Deus, “morto em delitos e pecados”. Porque, “ter a mente carnal é estar morto”. Corno está escrito: “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte; assim a morte, passou a todos os homens”, não só a morte temporal, mas também a morte espiritual e eterna. “No dia em que comeres, desse Deus a Adão, tu certamente morrerás”: não corporalmente (a não ser que se leve em conta que ele então se tornou mortal), mas espiritualmente: perderás a vida de tua alma; morreras para Deus; serás separado dele, que é a vida essencial e a felicidade.
9. Deste modo foi primeiro dissolvida a união vital de nossa alma com Deus; de sorte que, “em meio da vida natural, estamos agora em estado de morte espiritual”. Neste estado permaneceremos até que o Segundo Adão se torne para nós em Espírito vivificante; até que ele levante o morto, morto em pecado, em prazeres, riquezas e honras. Mas, antes que qualquer alma possa viver, o pecador primeiro “ouve” (preste atenção) “a voz do Filho de Deus”: toma-se sensível a seu estado de perdição e recebe a sentença de morte. Reconhece estar “morto, conquanto viva”: morto para Deus e para todas as coisas de Deus, não tendo mais força para praticar as ações de um cristão vivo do que o corpo morto tem-na para cumprir as
funções do homem vivo.
10. E ainda mais certo é que o morto em pecados não tem os “sentidos exercitados para discernir espiritualmente o bem e o mal”. “Tendo olhos ele não vê; tendo ouvidos, não ouve”. Não “prova e vê que o Senhor é benigno”. Ele “jamais viu a Deus”, nem “ouviu sua voz”, nem tocou o Verbo da vida”. Em vão ressoa em torno o nome de Jesus, “como ungüento derramado e todo seu vestuário três calando mirra, aloés e cássia”: a alma que dorme o sono da morte não tem percepção de nenhuma coisa dessa espécie. Seu coração “perdeu o sentimento” e nada compreende desses fatos.
11. Desprovido, assim, de senso espiritual, não retendo o conhecimento espiritual, o homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus; e tão longe está de as aceitar, que aquilo que se discerne espiritualmente lhe soa como loucura. Não contente de ser profundamente ignorante das coisas espirituais, ele nega mesmo a existência delas. A própria sensibilidade espiritual lhe parece ser a loucura das loucuras. “Como— pergunta ele —podem ser essas coisas? Como pode algum homem saber que está vivo para Deus?” Do mesmo modo que sabes que teu corpo está agora vivo. A fé é a vida da alma; se tu tens esta vida palpitante em ti, não tens necessidade de sinais para evidenciá-la a ti mesmo, pois que a ελεγχος πνεύματος, aquela divina consciência, testifica de Deus, o que é mais do que dez milhares de testemunhos humanos— e de mais valia que todos eles.
12. Se o Espírito não testifica, no presente, com teu espírito, seres filho de Deus, que Ele te convença, a ti, pobre pecador ainda não despertado, pela demonstração de seu poder, de que tu és filho do diabo! Oh! Se produzissem agora “um rumor e um estremecimento”, e “os ossos se reunissem, achegando-se cada osso a seu osso!” Então, “Vinde dos quatro ventos, ó Sopro! E soprai estes despojos para que revivam!” E não endureçais vossos corações, resistindo ao Santo Espírito, que agora, vem convencer-vos de pecado, “porque não credes no nome do Unigênito Filho de Deus”!

II

1. Assim, “desperta, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos”. Deus agora te chama pela minha boca e ordena que conheças por ti mesmo, tu, espírito decaído, teu verdadeiro estado e a coisa única que te importa sobre a terra. “Que esperas tu, ó adormecido? Levanta-te! Invoca a teu Deus, para que teu Deus atente para ti e não pereças.” Uma tempestade brava se forma por cima de ti— e tu estás assentado nasprofundezas da perdição, no abismo dos juízos de Deus! Se queres escapar a esses perigos, arranca-te do meio deles. “Julga-te a ti mesmo e não serás julgado pelo Senhor”.
2. Desperta, desperta! Levanta-te neste momento, para que não aconteça teres de “beber, pela mão do
Senhor, a taça de seu furor”. Move-te ao encontro do Senhor, para que o Senhor, tua justiça, te possa
salvar! “Levanta-te do pó”. Enfim, que o terremoto da tempestade de Deus te abale. Desperta, e clama com o tremor do carcereiro: “Que devo fazer para ser salvo?” E não descanses nunca até creres no Senhor Jesus com uma fé que é dom da parte dele, pela operação do Espírito.
3. Se a qualquer de vós, mais do que a outro, falo, é a ti, que pensas nada ter com esta exortação, que particularmente me dirijo. “Tenho para ti uma mensagem de Deus”. Em seu nome eu te conjuro a “fugires da ira vindoura”. Vê, alma ímpia, tua imagem no condenado Pedro, assentado na masmorra escura, entre soldados, ligado com duas cadeias, sentinelas postadas em frente à porta, guardando a prisão. A noite vai muito alta, a manhã se aproxima, quando serás levado à execução. E, em tais circunstâncias mortais, tu dormes, dormes profundamente nos braços do diabo, à borda do abismo, nas fauces da perdição eterna!
4. Que o anjo do Senhor desça sobre ti e a luz resplandeça em tua prisão! E possas tu sentir a caricia da mão poderosa erguendo-te a segredar: “Levanta-te depressa, cinge-te, calça tuas sandálias, toma teus vestidos e segue-me”.
5. Desperta, espírito eterno, de teu sonho de felicidade terrena! Não te criou Deus para si mesmo? Logo, não podes encontrar repouso até que nele descanses. Volta, viandante! Voa para tua arca! Este não é o teu lar. Não penses em construir tabernáculos aqui. Não és senão um peregrino sobre a terra, a criatura de um dia, em trânsito para um destino imutável. Apressa-te! A eternidade está próxima. A eternidade depende deste momento— uma eternidade feliz ou uma eternidade de miséria.
6. Em que estado se acha tua alma? Se Deus, enquanto estou falando, ta exigisse, estarias pronto a te encontrares com a morte e com o juízo? Podes permanecer à sua vista, que é a de “olhos demasiadamente puros para verem a iniqüidade?” Estás pronto “a seres participante da herança dos santos em luz?” Combateste “o bom combate e guardaste a fé”? Tomaste posse da única cosa que é necessária? Recobraste a imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade? Despojaste-te do homem velho, para te revestires do novo homem? Estás unido a Cristo?
7. Tens óleo em tua lâmpada, graça no coração? Amas “ao senhor teu Deus de todo teu coração, e de toda tua mente, e de toda tua alma, e de todas as tuas forças?” Há em ti aquela mente que havia também em Cristo Jesus? És na verdade cristão, isto é, uma nova criatura? O que era velho passou e agora se fizeram novas todas as coisas?
8. “És participante da natureza divina?” Não sabes que “Cristo está em ti, a não ser que sejas reprovado?” Não sabes que Deus “habita em ti e tu em Deus, pelo Espírito que ele te concedeu”? Não sabes que “teu corpo é templo do Espírito Santo, que tu tens mediante comunicação da parte de Deus?” Tens o testemunho em ti mesmo— penhor de tua herança? “Recebeste o Espírito Santo” ou te surpreendes com a pergunta, nem sabendo “sequer que haja um Espírito Santo”?
9. Se te ofendes, estejas descansado: tu nem és cristão, nem desejas sê-lo. Até mesmo tuas orações se volvem em pecado, e tens solenemente zombado de Deus neste dia, suplicando a inspiração de seu Espírito Santo, quando nem crês que haja uma tal coisa a ser comunicada!
10. Sim, firmado na autoridade da palavra de Deus e de nossa Igreja, repito a pergunta: “Recebeste o Espírito Santo?” Se não o recebeste, ainda não és cristão, porque— cristão é o homem “ungido com o Espírito Santo e com poder”. Não te fizeste ainda participante da religião pura e imaculada. Sabes que religião é esta? É a participação da natureza divina; a vida de Deus na alma humana; Cristo formado no coração; “Cristo em ti, a esperança da glória”; felicidade e santidade; o céu começando na terra; “o Reino de Deus em ti”, consistindo, não em comida, nem em bebida, nem em coisas materiais, mas em “justiça, e paz, e gozo no Espírito Santo”; um reino eterno estabelecido em tua alma; a “paz de Deus, que excede a toda compreensão”; um “gozo indizível e cheio de glória”.
11. Sabes que “em Jesus Cristo, nem a circuncisão vale corsa alguma, mas a fé que opera por amor”, mas
o ser uma nova criatura? Sentes necessidade de mudança interior, de nascimento espiritual, de vida que tome o lugar da morte, —da santidade? Estás profundamente convencido de que sem esta ninguém verá a Deus? Estás trabalhando por alcançá-la, “usando de toda diligência para fazer certa tua vocação e eleição”, “operando tua salvação com temor e tremor”, e “agonizando por entrar pela porta estreita?” Estás ansioso acerca de tua alma? E podes dizer ao Escrutador de corações: “Tu, ó Deus, és o que eu esperava desde muito tempo! Senhor tu sabes todas as coisas! Tu sabes que eu quero amar-te”!
12. Esperas ser salvo; mas que razões tens a dar da esperança que há em ti? Será porque não causaste prejuízo, ou porque fizeste grande cópia do bem, ou porque não és como os demais homens, mas sábio, ou erudito, ou honesto e moralmente bom, estimado do povo e de reputação ilibada? Ai! A soma de tudo isso jamais te levará a Deus. A sua vista isso é tão vão como a própria vaidade. Não conheces a Jesus Cristo, a quem Deus enviou? Não te ensinou ele que “pela graça sois salvos pela fé; e isto não vem de vós: é dom de Deus; não vem das obras, para que nenhum homem se glorie?” Como fundamento de toda tua esperança, não recebeste a palavra fiel, segundo a qual “Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores?” Não compreendeste o que significa: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento; não fui enviado senão à procura da ovelha perdida?” Estava tu (o que ouve, entenda), perdido, morto, condenado em outro tempo? Não reconheceste teu desamparo, não sentiste tuas misérias? És “pobre de espírito”, clamando por Deus e recusando todo conforto? És o pródigo que “cai em si mesmo”, ficando bem contente de ser daí por diante considerado “fora de si” por aqueles que ainda se alimentam das bolotas que ele deixou? Desejas viver piamente em Cristo Jesus, estando por esta causa sofrendo perseguição? Dizem os homens falsamente toda sorte de mal contra ti, por causa do Filho do Homem?
13. Que, através de todo este interrogatório, ouças a voz que desperta o morto e sinta o martelar da Palavra que despedaça as rochas! “Se ouvirdes sua voz neste dia, que se chama hoje, não endureçais osvossos corações”. Agora, “desperta, tu que dormes” na inconsciência da morte espiritual, para que não durmas no tormento da morte eterna! Reconhece teu estado de perdição e “levanta-te da morte”. Deixa teus velhos companheiros no pecado e na morte. Segue a Jesus, e “deixa que os mortos enterrem os seus mortos”. “Salva-te desta geração perversa”. “Sai do rio deles e separa-te, e não toques as coisas impuras, e o Senhor te recebera”. “Cristo te alumiará”.

III

1. Chego a ponto de explana, finalmente, esta promessa. E quão encorajadora é a consideração de que, quem quer que sejas que obedeças à chamada de Deus, não terás buscado em vão a sua face! Se tu agora “despertas e te levantas da morte”, ele correrá a “te alumiar”. “O Senhor te dará graça e glória”: a luz da sua graça aqui e a luz da sua glória quando receberes a coroa imarcescível. “Tua luz romperá como a aurora e tuas trevas serão como o meio-dia.” “Deus, que faz a luz brilhar em meio das trevas, luzirá em teu coração, para dar a conhecer a glória de Deus na face de Jesus Cristo.” “Neles o temor do Senhor fará levantar-se o Sol da Justiça, trazendo a salvação em suas asas.” Naquele dia a ti se te dirá: “Levanta-te, brilha; porque tua luz vem e a glória do Senhor se levanta sobre ti”. Porque Cristo revelar-se-á em ti: e ele é a verdadeira Luz.
2. Deus, que é luz, dar-se-á a si mesmo a todo pecador que desperte e por ele suspire: serás então um templo do Deus vivo; Cristo “habitará em teu coração pela fé”. “Arraigado e fundado no amor, estarás apto a compreender, com todos os santos, qual seja o comprimento, e largura, e profundidade: e altura do amor de Cristo, amor que excede a toda compreensão”.
3. Vede vossa vocação, irmãos. Somos chamados a ser “habitação de Deus mediante seu Espírito”; e, pelo seu Espírito habitamos em nós, tornamo-nos capazes de ser santos desde agora e participantes da herança dos santos em luz. Como são majestosamente vastas as promessas feitas a nós, e já no presente em nós cumpridas, em nós, os que cremos! Porque pela fé “recebemos, não o espírito do mundo, mas o Espírito de Deus”— a súmula de todas as promessas— “para que possais conhecer as coisas que vos são dadas livremente ppr Deus”.
4. O Espírito de Cristo é o grande dom que, em várias ocasiões e de diversas maneiras, Deus prometeu ao homem e efetivamente o tem comunicado, a partir do tempo da glorificação do mesmo Cristo. Essas promessas, feitas antes aos pais, Deus as cumpre deste modo: “Porei meu Espírito dentro de vós e vos farei andar em meus estatutos”. (Ez 26.27). “Derramarei água sobre o sedento e torrentes sobre o terreno árido: derramarei meu Espírito sobre tua semente e minha bênção sobre tua descendência”. (Is 44.3).
5. Todos vós podeis ser testemunhas vivas destas coisas —da remissão dos pecados e do dom do Espírito Santo: “Se podes crer, todas as coisas são possíveis ao que crê”. “Qual dentre vós é o que teme ao Senhor, e ainda anda em trevas e não tem luz”? Pergunto-te, em nome de Jesus: “Crês que seu braço não se retraiu de todo? Crês que ele ainda é poderoso para salvar, sendo o mesmo ontem, hoje e para sempre? Crês que ele tem poder, sobre a terra, de perdoar pecados”? “Filho, tem bom ânimo; teus pecados são-te perdoados”. Deus, por amor de Cristo, te perdoou. Recebe isto, “não como palavra humana; mas, certamente, como Palavra de Deus, o que na realidade é”, e serás justificado livremente mediante a fé; serás também santificado pela fé que há em Jesus, e sobre ti será aposto o selo divino, em testemunho de que “Deus nos deu a vida eterna, e que esta vida está em seu Filho”.
6. Irmãos, deixai que vos fale livremente e sofrei a palavra desta exortação, embora partindo de um dos últimos na hierarquia da Igreja. Vossa consciência vos testifica, no Santo Espírito, que essas coisas são assim, se é que já provastes que o Senhor é benigno. “Esta é a vida eterna: conhecer o único e verdadeiro Deus e a Jesus Cristo, a quem ele enviou”. Este conhecimento experimental, e só este conhecimento é o verdadeiro cristianismo. Quem recebeu o Espírito Santo é cristão; quem não o recebeu não é cristão. Não é possível recebê-lo e depois disto ainda não o conhecer. “Porque naquele dia (quando ele vier, diz o Senhor), conhecereis que estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós”. Este é aquele “Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê, nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita em vós e estará em vós”. (Jo 14.17).
7. O mundo não pode recebê-lo, mas, ao revés, contendendo e blasfemando, absolutamente rejeita a Promessa do Pai. Mas todo espírito que o não confessa não é de Deus. Sim, “este é o espírito do Anticristo, acerca do qual tendes ouvido que virá ao mundo, e já agora está no mundo”. Quem quer que negue a inspiração do Espírito Santo, ou negue que a comunicação do Espírito de Deus seja o privilégio comum de todos os crentes, a bênção do Evangelho, o dom indizível, a promessa universal, o critério pelo qual se mede o real cristão, — é o Anticristo.
8. De nada lhes aproveita o dizer: “Não negamos a assistência do Espírito de Deus; mas apenas essa inspiração, arecepção do Espírito Santo de maneira sensível. É somente a sensação do Espírito, o ser movido pelo Espírito oucheio dele, que negamos ter qualquer fundamento em sólida religião”. Mas, somente com negardes isto, negais toda a Escritura, toda a verdade, toda a promessa e o testemunho de Deus.
9. Nossa querida Igreja nada conhece dessa distinção diabólica, mas, ao contrário, claramente, fala do“sentir o Espírito de Cristo” ; de ser alguém “movido pelo Espírito Santo” ; e conhecer e “sentir que não há outro nome senão o de Jesus,” , pelo qual possamos receber vida e Salvação. Ela a todos nos ensina a “pedir a inspiração do Espírito Santo” ; sim, para que possamos “encher-nos do Espírito Santo” . Além disto, ensina que todo presbítero eleito dentre seus membros “recebe o Espírito Santo pela imposição das mãos”, Assim, negar qualquer dessas verdades é, com efeito, renunciar à Igreja da Inglaterra e a toda Revelação cristã.
10. A “Sabedoria de Deus” sempre foi tida pelos homens como “loucura”. Nada de admirável há, portanto, no fato de o grande mistério do Evangelho estar agora “oculto aos sábios e entendidos”, exatamente como o estivera nos tempos antigos; nada de admirável que o Evangelho seja hoje quase universalmente negado, ridicularizado, desacreditado como simples delírio, sendo estigmatizados com os qualificativos de loucos e fanáticos todos os que ainda ousam confessá-lo. Esta é a “decadência” que deveria vir; a apostasia geral dos homens de todas as condições e categorias, que vemos agora avassalando a terra. “Percorre abaixo e acima as ruas de Jerusalém e vê se achas um homem”, um homem que ame ao Senhor seu Deus de todo seu coração e o sirva com todas as suas forças. Como nossa terra geme, (não olhemos para trás! Debaixo do transbordamento da iniqüidade! Quanta vilania de toda espécie se comete a cada passo e, o que mais é, com impunidade, por aqueles que pecam ostensivamente, gloriando-se de sua ignomínia! Quem pode contar os juramentos, as maldições, as profanações, as blasfêmias; a mentira, a calúnia, a maledicência; as quebras do domingo, a glutonaria, a bebedice, a vingança; a prostituição, os adultérios e várias impurezas; as fraudes, a injustiça, a opressão, a extorsão,
que cobrem nossa terra, submergindo-a como num dilúvio?
11. Mesmo entre os que se têm guardado isentos das abominações mais grosseiras, quanta ira e orgulho, quanta preguiça e egoísmo, quanta moleza e efeminação, quanta luxúria e indulgência, quanta cobiça e ambição, quanta sede de louvor, quanto amor ao mundo, quanto receio do homem não lhes jazem no intimo! Ao mesmo tempo, quão pouco há de verdadeira religião! Porque, onde está o que ama a Deus ou ao próximo, na medida do mandamento que nos deu o Senhor? De um lado estão os que nem chegam a ter a forma da piedade; de outro lado estão os que possuem apenas a forma: ali são os sepulcros abertos; aqui, os sepulcros branqueados. De modo que em qualquer ato, onde quer que se forme algum ajuntamento de povo (temo que o público de nossas igrejas não faça exceção!) facilmente se pode perceber que de uma parte estão os Saduceus e de outra os Fariseus: uns dando tão escassa importância à religião, como se não houvesse “ressurreição, nem anjos, nem espírito”; e os outros dela fazendo simplesforma de vida, um jogo estúpido de cerimônias externas, sem verdadeira fé, nem amor de Deus, nem gozo
no Espírito Santo!
12. Prouvera a Deus que nos excetuássemos, nós, os que nos encontramos neste lugar! “Irmãos, o desejo de meu coração e minha oração a Deus, em vosso beneficio, é que sejais salvos” dessa onda de impiedade, e que suas vagas orgulhosas se possam deter aqui. Entretanto, está, na verdade, acontecendo isto? Deus e nossa própria consciência sabem que esta não é a realidade: Não vos tendes guardado puros. Corruptos também o somos nós e abomináveis— e poucos são os que têm melhor entendimento, poucos os que adoram a Deus em espírito e em verdade. Também somos “uma geração que não aplica o coração retamente, e cujo espírito não se firma solidamente em Deus”. Deus nos qualificou como “o sal da terra”; mas, “se o sal perder seu sabor, para nada mais presta, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens”.
13. E “não visitarei essas coisas, diz o Senhor? Minha alma não tomará vingança de uma nação como esta?” Sim, não sabemos quanto tempo falta para que Ele ordene à espada: “Espada, fere através desta terra!” Deus nos tem dado muito tempo para o arrependimento. Deixa-nos ele por este ano também, avisando-nos, todavia, e despertando-nos por meio do trovão. Seus juízos estão divulgados na terra — e temos toda razão de esperar o mais grave de todos, isto é, que “ele venha rapidamente a nós e remova nosso candeeiro de seu lugar, a não ser que nos arrependamos e façamos nossas primeiras obras”; a não ser que voltemos aos princípios da Reforma, à verdade e simplicidade do Evangelho. Talvez estejamos resistindo ao derradeiro esforço da graça divina para salvar-nos. Talvez estejamos quase a “encher a medida de nossas iniqüidades”, rejeitando o conselho de Deus contra nós mesmos e expulsando seus mensageiros.
14. Ó Deus, “em meio da ira, lembra-te de tuas misericórdias!”Sê glorificado em nossa emenda, e não em nossa perdição! Que “atendamos à correção e àquele que a inflige!” Agora que teus “juízos se acham divulgado-na terra”, que os habitantes do mundo “aprendam a justiça!”.
15. Meus irmãos é tempo de despertarmos do sono, antes que “soe a grande trombeta do Senhor” — e nossa terra se transforme em campo de sangue. Oh! Que vejamos rapidamente as coisas que nos possam assegurar a paz, antes que elas se ocultem a nossos olhos! “Volta-te para nós, ó bom Deus, e cesse tua ira. Ó Senhor, olha dos céus, considera e visita tua vinha”; e faze-nos conhecer “o tempo de nossa visitação”. “Ajuda-nos, ó Deus de nossa salvação, para glória de teu nome!” Oh! Liberta-nos, e sê misericordioso em face de nossos pecados, por amor de teu nome, e assim não nos afastaremos de ti. Faze-nos viver, e invocaremos o teu nome. Volta-te, Senhor Deus dos Exércitos! Mostra-nos a luz de tua face —e seremos sanados. "Agora, àquele que é capaz de fazer muito mais do que tudo quanto podemos pedir ou pensar, segundo o pode que opera em nós, a Ele seja a glória na igreja por Jesus Cristo, em todos os tempos até a consumação dos séculos. Amém!"
 John Wesley

OS SINAIS DOS TEMPOS

SERMÕES DE JOHN WESLEY
(1703 – 1791)
OS SINAIS DOS TEMPOS 
'E, pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Hipócritas, sabeis discernir a face do céu, e não conheceis os sinais dos tempos?' (Mateus 16:3)
1. A passagem inteira discorre assim: 'E os fariseus e os saduceus, aproximando-se, para o tentarem, pediram-lhe que lhes mostrasse algum sinal do céu. Mas Ele, respondendo, disse-lhes: Quando é chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está rubro. E, pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio. Hipócritas, sabeis discernir a face do céu, e não conheceis os sinais dos tempos?' (Mateus 16:1-3)
           
2. 'Os fariseus vieram também com os saduceus'. Em geral, esses eram, completamente opostos, um ao outro: mas não é uma coisa incomum para os filhos do mundo, colocar aparte a oposição de um para com o outro, (ao menos, por um tempo), e uni-los cordialmente em oposição aos filhos de Deus. 'E tentaram'; ou seja, fizeram uma prova, se Ele realmente tinha sido enviado de Deus; 'e pediram a Ele que mostrasse os sinais dos céus'; o que eles acreditavam que nenhum falso profeta seria capaz de fazer. Não é improvável que eles tenham imaginado que isto iria convencê-los, de que Ele era realmente enviado de Deus. 'Mas Ele, respondendo, disse-lhes: Quando é chegada a tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está rubro. E, pela manhã: Hoje haverá tempestade, porque o céu está de um vermelho sombrio'. Provavelmente, existiram mais sinais do bom e mau tempo no clima deles, do que no nosso. 'Ó, vocês, hipócritas'; fazendo declarações de amor, enquanto vocês têm inimizade em seus corações;vocês podem discernir a face do céu',  e julgar, por meio disto, como o tempo será; 'mas vocês não podem discernir os sinais dos tempos', quando Deus traz seu Primogênito para mundo?
3. Vamos inquirir mais particularmente:
  1. Primeiro, quais foram os tempos, sobre os quais nosso Senhor fala aqui; e quais foram os sinais, por meio dos quais, aqueles tempos deveriam ser distinguidos de outros? Nós podemos, então, inquirir:
  2. Em Segundo Lugar, quais são os tempos que nós temos razão para acreditar estão agora à mão; e como é que, aqueles que são chamados de cristãos, não discernem os sinais desses tempos?
I
1.  Vamos inquirir, em Primeiro Lugar: Que tempos eram aqueles, dos quais nosso Senhor está falando? É fácil responder: os tempos do Messias; os tempos ordenados, antes da fundação do mundo, em que Deus se agradou de dar seu único filho, Primogênito, para tomar nossa natureza sobre ele, e ser 'encontrado, de tal maneira, como um homem'. Para viver uma vida de tristeza e dor; e, finalmente, ser 'obediente à morte, mesmo à morte na cruz', para que 'todo aquele que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna'. Este foi o importante tempo dos sinais, os quais os fariseus e saduceus não puderam discernir. Perspicazes, como eles eram em si mesmos, ainda assim,  havia um véu tão espesso sobre os corações desses homens, que eles não puderam discernir os sinais de sua chegada, embora predita, há tanto tempo. 
2. Mas quais foram esses sinais da vinda do Justo, que, há tanto tempo e tão claramente têm sido preditos, e por meio dos  quais, eles poderiam facilmente ter discernido, não tivesse o véu estado em seus corações? Eles são muitos em números; mas pode ser suficiente mencionar alguns poucos deles. Um dos primeiros é aquele apresentado nas solenes palavras faladas por Jacó, pouco antes de sua morte: (Gênesis 49:10) 'O cetro não se arredará de Judá, nem o legislador dentre seus pés, até que venha Siló; e a ele se congregarão os povos'. Todos, ambos os judeus antigos e os modernos, concordam, que através de Siló, nós entenderíamos o Messias; que estava, por conseguinte, para vir, de acordo com a profecia, 'antes que o cetro', ou seja, a autoridade soberana 'partisse de Judá'. Mas, sem controvérsia, ele partiu de Judá, naquele mesmo tempo; -- um sinal infalível de que naquele mesmo tempo, Siló, ou seja, o Messias, viria.
3. Um segundo eminente sinal daqueles tempos, os tempos da vinda do Messias, nos é dado no terceiro capítulo da profecia de Malaquias: 'Eis que eu envio o meu mensageiro, que preparará o caminho diante de mim; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais; e o mensageiro da aliança, a quem vós desejais, eis que ele vem, diz o Senhor dos Exércitos' (Malaquias 3:1). Quão manifestamente foi isso cumprido, primeiro, pela vinda de João Batista; e, então, pelo  nosso abençoado Senhor, 'vindo, de repente, ao seu templo!'. E que sinal poderia ser mais claro para esses que consideraram imparcialmente as palavras do profeta Isaias:  (Isaías 40:3) 'Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor; endireitai, no ermo, a vereda a nosso Deus'.
4. Porém, sinais ainda mais claros do que esses (se algum pode ser mais claro) foram as obras poderosas que ele realizou. Na verdade, ele mesmo declara: 'As obras que eu faço, elas me testificam'.E, para essas, ele explicitamente apela em sua resposta à pergunta de João Batista; (não proposta, como alguns têm estranhamente imaginado, de alguma dúvida que ele mesmo tivesse; mas de um desejo de confirmar seus discípulos, que possivelmente poderiam oscilar, quando seu Mestre fosse tirado do comando): ´'És tu que deverias vir', o Messias?Ou procuramos por outro?'. Não  uma mera resposta verbal poderia ter sido tão convincente, como a que eles viram com seus próprios olhos. Jesus, entretanto, referiu-se a eles para esse testemunho: 'E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: Os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho' (Mateus 11:4-5)
5. Mas como é, então, que aqueles que eram tão perspicazes em outras coisas; que podiam 'discernir a face do céu', eram tão incapazes de discernir aqueles sinais que indicavam a vinda do Messias? Eles não puderam discerni-los, não pela falta de evidência – esta era completa e clara, -- mas pela necessidade de integridade em si mesmos; porque eles eram uma 'geração má e adúltera'; porque a perversidade de seus corações espalhou uma nuvem sobre o entendimento deles. Portanto, embora do Sol da Retidão brilhasse forte, ainda assim, eles eram insensíveis a ele. Eles não estavam dispostos a serem convencidos: Assim sendo, eles permaneceram na ignorância. A luz era suficiente; mas eles fecharam seus olhos, para que não pudessem vê-la: de modo que, não houve desculpa, até que a vingança veio ao extremo sobre eles.
II
1. Nós vamos, em Segundo lugar, considerar quais são os tempos que nós temos razão para acreditar, estão agora à mão? E como é que todos aqueles que são chamados cristãos não conseguem discernir os sinais desses tempos? 
Os tempos que nós temos razão para acreditar que estejam à mão (se eles ainda não começaram) são os que muitos homens devotos denominaram de o tempo da 'glória dos últimos dias'; --- significando o tempo em que Deus iria gloriosamente dispor seu poder e amor, no cumprimento de sua graciosa promessa, para que 'o conhecimento do Senhor possa cobrir a terra, como as águas cobrem o mar'.
2. 'Mas existem, na Inglaterra, ou em qualquer parte do mundo, alguns sinais dos tempos se aproximando?'.Não faz muitos anos, que uma pessoa de considerável cultura, tanto quanto eminência na igreja (então, bispo de Londres), em sua carta circular à sua diocese, fez essa observação: 'Eu não posso imaginar o que as pessoas querem dizer, falando de uma grande obra de Deus nesse tempo. Eu não vejo qualquer obra de Deus agora, mais do que tem sido, em qualquer outro tempo!'. Eu creio: Eu creio que aquele grande homem não viu qualquer obra extraordinária de Deus. Nem ele, nem a generalidade dos cristãos, assim chamados, viram alguns sinais do dia gloriosos que se aproxima. Mas como isto deve ser considerado? Como é que aqueles que podem agora 'discernir a face do céu', que não são apenas grandes filósofos, mas grandes homens de Deus, tão eminentes quanto os saduceus; sim, quanto os fariseus sempre foram, não discernem os sinais daqueles tempos gloriosos, que, se não começaram, estão quase à porta?
3. Nós compreendemos que, de fato, em todas as épocas da igreja, 'o reino de Deus não veio com contemplação',com esplendor e pompa, ou com algumas das circunstâncias exteriores, que usualmente atendem aos reinos desse mundo. Nós compreendemos que esse 'reino de Deus está dentro de nós'; e que, conseqüentemente, quando ele começa, tanto em um indivíduo, quanto em uma nação, ele 'é como a semente do grão de mostarda',  que, primeiro, 'é a menor das sementes', mas, não obstante, gradualmente aumenta, até que se 'torna uma árvore grande'.  Ou, para usar de outra comparação de nosso Senhor, em(Mateus 13:33) 'O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado'.
4. Mas, não pode ser perguntado, 'Existem alguns sinais agora, de que o dia do poder de Deus esteja se aproximando?'. Eu apelo a toda pessoa lúcida e sem preconceito, se nós não podemos, nesse momento, discernir todos esses sinais, (entendendo as palavras em um sentido espiritual), aos quais nosso Senhor se referiu aos discípulos de João?
'Os cegos recebem o sinal deles': Aqueles que eram cegos de nascença, incapazes de verem seus próprios estados deploráveis, e muito mais de verem a Deus, e o remédio que Ele preparou para eles no Filho do Seu amor, agora vêem a si mesmos; sim, e vêem 'a luz da glória de Deus, na face de Jesus Cristo'. Os olhos do entendimento deles, estando agora abertos, eles vêm todas as coisas claramente. --
'Os surdos ouvem': Aqueles que eram antes extremamente surdos para todos os chamados exteriores e interiores de Deus, agora ouvem; não apenas seus chamados providenciais, mas também os sussurros de Sua graça. –
'Os coxos andam: Aqueles que nunca antes se ergueram da terra, ou deram um passo, em direção aos céus, agora caminham em todos os caminhos de Deus: sim; 'correndo a corrida que se coloca diante deles' --
'Os impuros são limpos': Aqueles que estavam mortalmente sujos pelo pecado, que eles trouxeram consigo para o mundo, e que nenhuma façanha do homem pode curar, é agora limpo completamente. E certamente nunca, em qualquer época ou nação, desde os Apóstolos, essas palavras foram tão eminentemente cumpridas, 'Os pobres têm o Evangelho pregado a eles', como nesses dias. Nesses dias, a levedura do Evangelho, a fé operada pelo amor, -- santidade interior ou exterior, -- ou (para usar o termo de Paulo), 'retidão, paz e alegria no Espírito Santo',--  tem se espalhado tanto, em várias partes da Europa, particularmente, na Inglaterra, Escócia, Irlanda, nas ilhas, no norte s sul, da Geórgia, à Nova Inglaterra, e Terra Nova, que os pecadores têm se convertido verdadeiramente para Deus; completamente mudados no coração e na vida; não através de dezenas, ou centenas, mas através de milhares, sim, miríades! O fato não pode ser negado: nós podemos indicar as pessoas, com seus nomes e lugares de moradia. E, ainda assim, os homens sábios do mundo, os homens de eminência, os homens de aprendizado e renome, 'não podem imaginar o que nós queremos dizer, por falarmos de alguma obra extraordinária de Deus!'. Eles não podem discernir os sinais desses tempos! Eles não podem ver sinal algum, afinal, de Deus se levantando, para manter sua própria causa, e estabelecer seu reino sobre a terra!
5. Mas como isto pode ser levado em conta? Como é que eles não podem discernir os sinais desses tempos? Nós podemos considerar a vontade de discernimento deles sobre o mesmo princípio que nós consideramos aquele dos fariseus e saduceus; ou seja, que eles são, igualmente, o que aqueles eram, uma 'geração adúltera e pecadora'. Se os olhos deles fossem puros, todo o corpo deles seria cheio de luz: mas supondo-se que os olhos deles sejam maus, todo o seu corpo deverá ser cheio de escuridão. Todo temperamento mau escurece a alma; toda paixão má anuvia o entendimento. Como, então, podemos esperar que, os que estão cheios de toda paixão desordenada, e escravos de todo temperamento pecaminoso, sejam capazes de discernir os sinais dos tempos?
Mas este é realmente o caso. Eles estão cheios de orgulho: Eles pensam em si mesmos, muito mais além do que deveriam pensar. Eles são vãos: Eles 'buscam a honra um do outro, e não a honra que vem de Deus apenas'. Eles afagam o ódio e a malícia em seus corações: eles dão lugar à ira, à inveja e à vingança: Eles pagam o mal com o mal, e ódio com ódio. Eles não têm escrúpulos em pleitear olho por olho, dente por dente, em vez de sobrepujarem o mal com o bem. Eles 'saboreiam não as coisas que são de Deus, mas as coisas que são de homens'. Eles estabelecem suas afeições, não nas coisas acima, mas nas coisas que estão na terra. Eles 'amam a criatura mais do que o Criador'. Eles são 'amantes do prazer, mais do que amantes de Deus'. Como, então, eles deveriam discernir os sinais dos tempos? O deus desse mundo, a quem eles servem, tem cegado seus corações, e coberto suas mentes com o véu espesso da escuridão. Ai de mim! O que essas 'almas de carne e sangue' (como alguém fala) têm a ver com Deus, ou com as coisas de Deus?
6. João afirma essa mesma razão para os judeus não entenderem as coisas de Deus, ou seja, que em conseqüência de seus pecados precedentes, e de terem terrivelmente rejeitado a luz, Deus os entregou a satanás, que os cegou, sem esperança. Repetidas vezes, quando eles poderiam ter visto, eles não puderam; eles fecharam seus olhos à luz: e, agora, eles não podem ver, já que Deus os entregou a uma mente sem discernimento: portanto, eles não acreditaram, pelo que Isaias disse (ou seja, por causa da razão dada naquele dizer de Isaias) 'Ele tem cegado seus olhos, e endurecido seus corações de modo que eles não podem ver com seus olhos, nem entender com seus corações, e serem convertidos, e eu possa curá-los'. (Isaías 44:18) – 'Nada sabem, nem entendem; porque tapou os olhos para que não vejam, e os seus corações para que não entendam'. O significado claro é que Deus não fez isto através de seu próprio poder imediato – seria uma blasfêmia vulgar dizer que Deus, nesse sentido, endurece algum homem; mas seu Espírito não mais se empenha com eles, e, então, Satanás os endurece efetivamente.
7. E, como foi com eles, nos tempos antigos, assim é, com a presente geração. Milhares daqueles que carregam o nome de Cristo, estão agora entregues a uma mente sem discernimento. O deus do mundo tem cegado tanto seus olhos, que a luz não pode brilhar sobre eles; de modo que eles não podem discernir os sinais dos tempos, não mais do que os fariseus e saduceus puderam no passado. Um exemplo maravilhoso dessa cegueira espiritual, dessa total inabilidade de discernir os sinais dos tempos, mencionados nas Escrituras, nos é dado no mesmo trabalho célebre de um recente escritor eminente, que supõe que a Nova Jerusalém desceu dos céus, quando Constantino, o Grande, chamou a si mesmo de cristão. Eu digo, chamou a si mesmo de cristão; porque eu não me atrevo a afirmar que ele foi um; não mais do que Peter, o Grande. Eu não posso deixar de acreditar, que ele teria chegado perto disto, se tivesse dito que foi no tempo, quando uma nuvem enorme de enxofre infernal e fumaça saiu do abismo sem fim! Porque, certamente, nunca houve um tempo, em que satanás teve tão fatal vantagem sobre a Igreja de Cristo, quando tal inundação de ricos, honrados e poderosos irrompeu, particularmente, no Clero!
8. Pela mesma regra, quais sinais esse escritor teria esperado da conversa similar dos pagãos? Ele teria, sem dúvida, esperado um herói, parecido com Charles da Suécia, ou Frederico da Prússia, para levar fogo, espada e Cristianismo, através de todas as nações imediatamente! E não pode ser negado, que, desde os tempos de Constantino, muitas nações têm sido convertidas dessa maneira. Mas pode ser dito, concernente a tais conversas como essas, que: 'O Reino dos céus não se aproxima com cautela?'. Certamente, todos podemos observar um guerreiro atravessando a terra, no comando de cinqüenta a sessenta mil homens! Mas é este o caminho, para se espalhar o Cristianismo, que o autor dele, o Príncipe da Paz, tem escolhido? Não. Não é dessa maneira, que a semente de um grão de mostarda se transforma numa grande árvore. Não é assim que um pouco de fermento levada toda a farinha. Antes, ele se espalha devagar, mais e mais, até que tudo esteja levedado. Nós podemos formar um julgamento do que irá acontecer, daqui a diante, através do que já temos presenciado. E este é o caminho, no qual, a verdadeira religião cristã, a fé que é operada pelo amor, tem sido espalhada, particularmente, através da Grã-Bretanha, e suas dependências, por meio século. 
9. Da mesma maneira, ela continua a se espalhar, no momento presente, como facilmente pode parecer para todos aqueles cujos olhos estão cegos. Todos esses que experimentam, em seus corações, o poder de Deus, na salvação, irão, prontamente, perceber como a mesma religião que eles desfrutam, é ainda espalhada de coração para coração. Eles reconhecem a mesma graça de Deus, fortemente e  suavemente, operando de todos os lados; e regozijam-se de encontrar um ou outro pecador, primeiro inquirindo, 'O que devo fazer para ser salvo?', – e, então, testificando,'Minha alma exalta o Senhor, e meu espírito regozija-se em Deus, meu Salvador'. Sobre uma inquisição sincera e clara, eles se certificam, mais e mais, não apenas daqueles que tinham alguma forma de religião, mas daqueles que não tinham forma, afinal, e que eram pecadores dissolutos e abandonados, agora, inteiramente mudados, verdadeiramente temendo a Deus, e operando retidão. Eles observam, mais e mais, que, até mesmo esses pobres homens proscritos, estão mudados, interiormente e exteriormente; amando a Deus e seu próximo; vivendo na prática da justiça, misericórdia e verdade uniforme; e, quando têm tempo, fazendo o bem a todos os homens; tranqüilos e felizes em suas vidas, e triunfantes na morte.
10. Que desculpa, então, aquele que acredita que as Escrituras sejam a Palavra de Deus, tem para não discernir os sinais desses tempos, como preparatório para o chamado geral dos pagãos?  O que Deus poderia ter feito, que ele ainda não fez, para convencer vocês de que o dia está chegando, que o tempo está à mão, quando Ele irá cumprir Suas gloriosas promessas; quando Ele se erguerá para manter sua própria causa, e estabelecer seu reino sobre toda a terra? O que, realmente, a menos que ele tivesse forçado vocês a acreditarem? E isto ele não faria, sem destruir a natureza que Ele deu a vocês: Já que Ele fez de vocês agentes livres, tendo um poder interior de autodeterminação, que é essencial para a natureza de si mesmos. E Ele dialoga com vocês, como agentes livres, do começo ao fim. Como tais, vocês podem fechar ou abrir seus olhos, como quiserem. Vocês têm suficiente luz brilhando ao redor de vocês; ainda assim, vocês não precisam vê-la, a menos que queiram. Mas estejam certos de que Deus não está feliz com o fato de vocês fecharem seus olhos, e dizerem, 'Eu não posso ver'. Eu aconselho vocês a fazerem um exame imparcial sobre todo o assunto. Depois de um claro questionamento sobre o problema, considerem profundamente,'O que Deus tem feito?'. 'Quem poderá ver tal coisa? Quem poderá ouvir tal coisa?'. Terá a nação, como ela está, se 'formado em um só dia'? Quão rápido, assim como, quão profundo, e quão extensivo trabalho tem sido forjado na presente época! E, certamente, 'não pela força, nem pelo poder, mas através do Espírito do Senhor'.Porque quão extremamente inadequados foram os meios! Quão insuficientes foram os instrumentos para operar tal efeito; -- pelo menos, aqueles que agradou a Deus fazer uso nos domínios britânicos na América! Porém, quão inauspiciosos instrumentos Deus tem se agradado de operar desde o início! 'Alguns poucos obstinados', disse o bispo de Londres, 'o que eles podem pretender fazer?'. Eles pretenderam ser na mão de Deus, o que a caneta é na mão de um homem. Eles pretenderam, (e assim o fazem até hoje) fazer a obra para a qual eles foram enviados; fazer justo o que agrada a Deus. E, se é do Seu prazer, derrubar as muralhas de Jericó, as fortalezas de satanás, não através dos mecanismos da guerra, mas através do sopro de chifres de carneiros, quem deverá dizer junto a Ele,'O que tu fazes!'.
11. Nesse meio tempo, 'abençoados sejam seus olhos, porque eles vêm: muitos profetas e homens retos têm desejado ver as coisas que vocês vêem, e não têm visto, e ouvir as coisas que vocês ouvem, e não têm ouvido'.Vocês vêem e reconhecem o dia de sua visitação; tal visitação, como nunca vocês, nem seus antepassados conheceram. Vocês podem bem dizer, 'Este é o dia que o Senhor fez; Ele irá se regozijar e estar satisfeito nele'.Vocês vêem a alvorada daquele dia glorioso, do qual todos os profetas têm falado. E quão vocês deverão mais efetivamente melhorar esse dia de sua visitação?
12. O primeiro ponto é ver que vocês mesmos não receberam a bênção de Deus em vão. Comecem pela raiz, se vocês ainda não o fizeram. Agora se arrependam e acreditem no Evangelho! Se vocês têm acreditado, 'cuidem, para que não percam o que têm feito, mas para que receberam a recompensa completa! Estimulem o dom de Deus que está em vocês. Caminhem na luz, como Ele está na luz. E, enquanto vocês 'seguram firmes o que vocês obtiveram, sigam para a perfeição'. Sim, e quando vocês 'forem feitos perfeitos no amor', não obstante,'esquecendo-se deles que estão atrás, pressionem para a marca,  para o prêmio do alto chamado de Deus em Jesus Cristo'.
13. No próximo passo, cabe a vocês auxiliarem o seu próximo. 'Permitam que a luz de vocês brilhe, de tal maneira diante de homens, que eles possam ver suas boas obras, e possam glorificar seu Pai que está nos céus'. Quando tiverem tempo, façam o bem a todos os homens; mas, especialmente, àqueles que são familiarizados da fé. Proclamem as boas novas da salvação, prontas a serem reveladas, não apenas para aqueles de sua própria casa; não apenas para os seus parentes, amigos, e conhecidos, mas para todos que Deus, providencialmente, entrega em suas mãos! 'Sim', aqueles que já sabem em quem eles têm crido, 'que são o sal da terra'. Trabalhem para temperarem, com o conhecimento e amor de Deus, todos com os quais têm algum intercurso! 'Vocês são como a cidade, situada encima de uma colina'; vocês não podem, e não devem ser ocultados. Vocês são a luz do mundo: os homens não acendem a candeia e a colocam debaixo do alqueire' (Mateus 5:15); quanto menos, o Deus de toda sabedoria! Não; que ela brilhe para todos que estão na casa; todos que são testemunhas de sua vida e conversa. Acima de tudo, continuem em oração constante, por si mesmos, por toda a igreja de Deus, e por todos os filhos dos homens, para que eles possam se lembrar de si mesmos, e voltar para nosso Deus; para que eles possam igualmente alegrar-se no Evangelho, abençoando a terra, e a glória de Deus no céu!
[Editado por Amy Johnston, estudante da Northwest Nazarene College (Nampa, ID), com correções de George Lyons for the Wesley Center for Applied Theology.]
 John Wesley