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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sobre o Pecado nos Crentes


John Wesley
           
'Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo'. (II Corintios 5:17)



I. O pecado permanece em alguém que crê em Cristo?

II. Qual as diferenças entre o pecado interior e o pecado exterior?

III.  A carne - a natureza má – opõe-se ao Espírito, até mesmo nos crentes.

IV. Um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, ao mesmo tempo em que é impuro, não consagrado e não santo. 

V. Existe em cada pessoa dois princípios contraries: natureza e graça.

I

1. Existe, então, pecado naquele que está em Cristo? O pecado permanece naqueles que crêem Nele? Existe algum pecado naqueles que são nascidos de Deus, ou eles estão totalmente livres dele? Que ninguém imagine que esta seja uma questão de mera curiosidade; ou que seja de pequena importância, se for determinado um caminho ou o outro. Antes, é um ponto de extrema relevância para todos os cristãos sérios; decidirem o que mais proximamente concerne à sua felicidade presente e eterna.

2. E, ainda assim, eu não sei se isto foi, alguma vez, discutido na igreja primitiva. Decerto, não existiu espaço para disputas concernentes a ela, já que todos os cristãos estavam de acordo. E, até onde eu tenho observado, todo o corpo de cristãos do passado, que nos deixaram algo escrito, declararam a uma só voz, que, mesmo os crentes em Cristo, até que eles estejam 'fortalecidos no Senhor, e no poder de sua força', têm necessidade de 'lutar com a carne e sangue', com uma natureza pecaminosa, assim como, 'com principados e potestades'.
           
3. E neste contexto, nossa Igreja (como realmente na maioria dos termos) copia exatamente segundo a igreja primitiva; declarando em seu Nono Artigo: 'O pecado original é a corrupção da natureza de todo homem, de forma que ele está inclinado ao mal, pela sua própria natureza; assim sendo, a carne cobiça, contrariamente ao Espírito. E esta influência da natureza permanece; sim, naqueles que estão regenerados; de maneira que, a luxúria da carne não é objeto da lei de Deus. E, embora não exista condenação para aqueles que crêem, ainda assim, esta luxúria tem em si mesma a natureza do pecado'.

4. O mesmo testemunho é dado, através de todas as outras igrejas; não apenas, através da igreja grega e romana, mas através de toda igreja reformada na Europa, de qualquer que seja a denominação. De fato, alguns desses parecem levar a coisa muito longe; descrevendo a corrupção do coração do crente, como que dificilmente admitindo que ele tem domínio sobre ela, mas que, antes, é seu escravo; e, por esses meios, eles fazem uma pequena distinção entre um crente e um descrente.

5. Para evitarem este extremo, os muitos homens bem intencionados, particularmente esses, debaixo da direção do recente Conde Zinzendorf [líder Morávio (denominação Protestante, surgida no século XVIII, pela renovação do antigo movimento dos Irmãos Boêmios, que dá ênfase à vida cristã pura e simples e à fraternidade dos homens. Mais comumente conhecida como Irmãos Morávios)], foram para o outro lado, afirmando que 'todos os crentes verdadeiros não são apenas salvos do domínio do pecado, mas da existência do pecado interior, assim como exterior; de maneira que ele não mais permanece neles':E desses, por volta de vinte anos atrás, muitos de nossos compatriotas absorveram a mesma opinião de que, até mesmo a corrupção da natureza, não está mais, naqueles que crêem em Cristo.

6. É verdade que, quando os alemães foram pressionados, eles logo admitiram (muitos deles, pelo menos) que 'o pecado ainda permanece na carne, mas não no coração de um crente'; e, depois de um tempo, quando o absurdo disto foi mostrado, eles razoavelmente desistiram do ponto; admitindo que o pecado ainda permanecia, embora não reinasse, naquele que é nascido de Deus.

7. Mas o inglês que recebeu isto deles (alguns diretamente, alguns de segunda e terceira mão) não foi tão facilmente convencido a se desfazer de uma opinião favorita. E, até mesmo quando a generalidade deles se convenceu de que ela era extremamente indefensável, alguns poucos não puderam ser persuadidos a desistir, mas mantiveram-na até hoje.

II

1. Por causa desses que realmente temem a Deus, e desejam conhecer 'a verdade que está em Jesus'; não pode ser impróprio considerar o ponto com calma e imparcialidade. Ao fazer isto, eu uso indiferentemente as palavras, regenerado, justificado, ou crentes; desde que, embora eles não tenham precisamente o mesmo significado (o Primeiro, implicando uma mudança interior, verdadeira; o Segundo, uma mudança relativa; e o Terceiro, os meios pelos quais, tanto uma quanto a outra é forjada); ainda assim, elas convergem para a mesma coisa; já que todos os que crêem são ambos, justificados e nascidos de Deus.

2. Por pecado, eu entendo aqui pecado interior; qualquer temperamento pecaminoso, paixão ou afeição, como orgulho, vontade própria, amor ao mundo, de algum tipo, ou em algum grau; tal como cobiça, ira, impertinência; qualquer disposição contrária à mente que estava em Cristo. 

3. A questão não é concernente ao pecado exterior; quer um filho de Deus cometa pecado ou não. Nós todos concordamos e sinceramente mantemos 'que ele que comete pecado é do diabo'. Nós concordamos, 'que quem é nascido de Deus não comete pecado'. Nem agora inquirimos, se o pecado interior irá permanecer sempre nos filhos de Deus; se ele irá continuar na alma, por quanto tempo ela continue no corpo: Nem, ainda assim, inquirimos, se uma pessoa justificada possa reincidir em um pecado interior ou exterior; mas, simplesmente isto: um homem justificado ou regenerado está liberto de todo pecado, tão logo ele seja justificado? Não existe, então, pecado algum em seu coração? – nem mesmo depois, a não ser, se ele cair da graça?

4. Nós admitimos que o estado de uma pessoa justificada é inexprimivelmente grande e glorioso. Ele é nascido novamente, 'não do sangue; nem da carne; nem da vontade do homem, mas de Deus'. Ele é filho de Deus, um membro de Cristo, um herdeiro do trono dos céus. 'A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, mantém seu coração e mente em Jesus Cristo'. Mesmo seu corpo é um 'templo do Espírito Santo',  e uma 'morada de Deus, através do Espírito'. Ele é 'feito novo em Jesus Cristo': Ele é lavado; ele é santificado. Seu coração é purificado pela fé; ele é limpo 'de toda corrupção que está no mundo'; 'o amor de Deus espalha-se em seu coração, pelo Espírito Santo que é dado a ele'. E, por quanto tempo ele 'caminha no amor' (o que ele pode sempre fazer), ele adora a Deus em espírito e em verdade. Ele mantém Seus mandamentos, e faz todos as coisas que são agradáveis aos olhos de Deus; assim, exercitando a si mesmo, como para 'ter a consciência que evita a ofensa, em direção a Deus, e em direção ao homem': E ele tem poder, tanto sobre o pecado exterior quanto interior, até mesmo, do momento em que ele é justificado.

III

1. 'Mas ele não está, então, liberto de todo pecado, de modo que não exista pecado em seu coração?'.Eu não posso dizer isto; eu não posso acreditar nisso; porque Paulo diz o contrário. Ele está falando para crentes e descrevendo o estados dos crentes em geral, quando ele diz: (Gálatas 5:17) 'Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes se opõem um ao outro, para que não façais o que quereis'. Nada pode ser mais explícito. O Apóstolo afirma aqui diretamente que a carne - a natureza pecaminosa, se opõe ao Espírito, mesmos nos crentes; que, mesmo no regenerado, existem dois princípios, 'contrários um ao outro'.

2. Novamente: Quando ele escreve para os crentes em Corinto; para aqueles que foram santificados em Jesus Cristo, (I Corintios 1:2) 'À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso', ele diz: (I Corintios 3:1) 'E eu, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais, como a meninos em Cristo. Com leite vos criei, e não com carne, porque ainda não podíeis, nem tampouco ainda agora podeis, Porque ainda sois carnais; pois, havendo entre vós inveja, contendas e dissensões, não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens?'. Agora aqui o Apóstolo fala junto àqueles que eram inquestionavelmente crentes; a quem,  no mesmo fôlego,  ele denominou seus irmãos em Cristo, -- como sendo ainda, em uma medida - carnais. Ele afirma que existia inveja (um temperamento pecaminoso), ocasionando contenda entre eles, e ainda assim, ele não fez a menor insinuação de que eles tivessem perdido sua fé. Mais do que isto, ele manifestadamente declara que eles não haviam perdido; porque, então, eles não seriam bebês em Cristo. E (o que é mais notável de tudo), ele fala de serem carnais, e bebês em Cristo, como uma e a mesma coisa; mostrando plenamente que todo crente que todo crente é (em um grau) carnal, enquanto ele é apenas um bebê em Cristo.  

3. De fato, este grande ponto, o de que existem dois princípios contrários nos crentes, -- natureza e graça; a carne e o Espírito, mencionados, através de todas as Epistolas de Paulo; sim, através de todas as Escrituras; quase todas as direções e exortações, neste contexto, estão alicerçadas nesta suposição; apontando para os temperamentos e práticas errôneos naqueles que eram, não obstante, reconhecidos pelos escritores inspirados, serem crentes. E eles eram continuamente exortados a combater e conquistar estes, pelo poder da fé que estava neles.  

4. E quem pode duvidar, a não ser que existia fé no anjo da igreja de Efésios, quando nosso Senhor disse a ele: (Apocalipse 2:2-4) 'Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência, e que não podes sofrer os maus; e puseste à prova os que dizem ser apóstolos, e eles não são, e tu os achaste mentirosos. E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste'. Mas existia, nesse meio tempo, nenhum pecado em seu coração? Existia, ou Cristo não teria acrescentado: 'Não obstante, tenho contra ti que deixaste o teu primeiro amor'. Este foi um pecado real que Deus viu em seu coração; do qual, adequadamente, ele é exortado a se arrepender. E ainda assim, nós não temos autoridade para dizer, que, mesmo então, ele não tem fé.

5. Mais do que isso, o anjo da igreja de Pérgamo, também é exortado a se arrepender, o que sugere pecado, embora nosso Senhor expressamente diga: (Apocalipse 2:13, 16) 'Conheço as tuas obras, e onde habitas, que é onde está o trono de Satanás; e reténs o meu nome, e não negaste a minha fé, ainda nos dias de Antipas, minha fiel testemunha, o qual foi morto entre vós, onde Satanás habita. (...) Arrepende-te, pois, quando não em breve virei a ti, e contra eles batalharei com a espada da minha boca'. E ao anjo na igreja de Sardes, ele diz: (Apocalipse 3:2) 'Sê vigilante, e confirma os restantes, que estavam para morrer; porque eu não achei tuas obras perfeitas diante de Deus'. O bem que ainda restava estava pronto para morrer; mas estava verdadeiramente morto. De modo que ainda havia uma faísca de fé, mesmo nele; o que está de acordo ordenando para segurar firme: (Apocalipse 3:3) 'Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei'.  

6. Uma vez mais: Quando o Apóstolo exorta os crentes em (2 Coríntios 7:1) 'Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito; aperfeiçoando a santificação no temor de Deus', ele plenamente ensina que esses crentes não estavam ainda limpos disso.

Você irá perguntar: 'Mas ele que se abstêm de toda a aparência do mal, ipso facto, limpa a si mesmo de toda imundícia?'. Não, de maneira alguma. Por exemplo: um homem me insulta: eu sinto ressentimento, o que é imundícia do espírito; ainda assim, eu não digo uma palavra. Aqui, eu 'me abstenho de toda a aparência do mal';  mas isto não me limpa da imundícia do espírito, como eu experimento para minha tristeza.

7. E, como esta posição: 'Não existe pecado em um crente; nenhuma mente carnal; nenhuma inclinação à apostasia', é, então, contrária à palavra de Deus, assim, é para a experiência de seus filhos. Esses continuamente sentem um coração inclinado à apostasia; uma tendência natural para o mal; uma predisposição a separar-se de Deus, e se aderirem às coisas da terra. Eles estão diariamente conscientes do pecado permanecendo em seus corações, -- orgulho, vontade própria, descrença; e do pecado, aderindo a tudo o que eles falam ou fazem, até mesmo, às suas melhores ações, e as mais santas obrigações. Ainda assim, ao mesmo tempo em que eles 'sabem que são de Deus'; eles não duvidam disto, por um momento. Eles sentem seu Espírito, claramente, 'testemunhando com o espírito deles, que eles são filhos de Deus'. Eles 'se regozijam em Deus, através de Jesus Cristo, por meio de quem, eles têm agora recebido a redenção'. De modo que eles igualmente garantiram que o pecado está neles, e que 'Cristo é neles, a esperança da glória'.

8. 'Mas Cristo pode estar no mesmo coração, em que o pecado está?'. Sem dúvida que pode; do contrário ele nunca poderia ser salvo disto. Onde está a doença, lá está o médico, exercendo seu trabalho; lutando, até que lance fora o pecado. Decerto que Cristo não pode reinar, onde o pecado reina; nem Ele irá habitar onde algum pecado é permitido. Mas Jesus está e habita no coração de todo crente que esteja lutando contra todo o pecado; embora não seja ainda purificado, de acordo com a purificação do santuário.

9. Foi observado antes, que a doutrina oposta, -- a de que não existe pecado nos crentes, -- é completamente nova na igreja de Cristo; já que nunca foi ouvida, durante cento e dezessete anos; nunca, até que foi descoberta pelo conde Zinzendorf. Eu não me lembro de ter visto a menor insinuação dela, tanto nos escritores antigos, quanto modernos; exceto, talvez, em alguns dos selvagens e entusiastas antinomianos [os que acreditavam que, pela fé e a graça de Deus anunciadas no Evangelho, os cristãos são libertados, não só da lei de Moisés, mas de todo o legalismo e padrões morais de qualquer cultura]. E esses, igualmente, dizem e desdizem, admitindo que existe pecado na sua carne, embora nenhum pecado em seus corações. Mas, apesar da doutrina ser nova, ela está errada; porque a religião antiga é a única verdadeira; e nenhuma doutrina pode ser correta, a menos que seja exatamente a mesma 'que fora desde o início'.

10. Um argumento a mais contra essa doutrina nova e não bíblica, pode ser esboçada das conseqüências terríveis dela. Se alguém diz: 'Eu sinto ira hoje'. Eu devo replicar: 'Então, você não tem fé?'. Um outro diz: 'Eu sei que o que você aconselha é bom, mas minha vontade é completamente contrária a isto'. Eu devo dizer a ele: 'Então, você é um descrente, debaixo da ira e maldição de Deus?'. Qual será a conseqüência natural disto? Porque, se ele acredita no que eu digo, sua alma não apenas será afligida e magoada, mas, talvez, seja totalmente destruída, visto que, como ele 'irá lançar fora' aquela 'confiança que tem na grande recompensa de galardão': E, tendo lançado fora sua proteção, como ele irá 'extinguir os dados certeiros do iníquo?'. Como ele irá superar o mundo? – vendo que 'essa é a vitória que domina o mundo, até mesmo nossa fé?'.

Ele se encontra desarmado, em meio aos seus inimigos; exposto a todos os assaltos deles. Qual a surpresa então, se ele for totalmente dominado; se eles o tornarem escravos da vontade deles; sim, se ele cair, de uma maldade para outra, e nunca mais ver o bem? Por conseguinte, eu não posso, por nenhum meio, receber essa afirmação, de que não existe pecado no crente, do momento em que ele é justificado.

Em Primeiro Lugar, porque é contrário a todo o teor das Escrituras; -- Em Segundo Lugar, porque é contrário à experiência dos filhos de Deus, -- Em terceiro lugar, porque é absolutamente novo, nunca ouvido no mundo, até ontem; -- e, em Último Lugar, porque é naturalmente atendido com as mais fatais conseqüências; não apenas afligindo aqueles a quem Deus não tem afligido, mas, talvez, arrastando-os para a perdição eterna.

IV

1. Contudo, permita-nos ouvir atentamente aos principais argumentos desses que se esforçam para sustentar isto. Primeiro, é das Escrituras que eles tentam provar que não existe pecado no crente. Eles argumentam assim: 'As Escrituras dizem que todo crente é nascido de Deus, é limpo, santo e consagrado; é puro no coração; tem um novo coração; e é um templo do Espírito Santo. Agora, como 'aquele que é nascido da carne, é carne', é completamente mal, assim, 'aquele que é nascido do Espírito é espiritual', e completamente bom. Novamente: Um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, e, ao mesmo tempo, impuro, não consagrado, não santo. Ele não pode ser puro e impuro; ou ter um coração novo e velho, juntos. Nem pode sua alma ser não santa, enquanto ele é o templo do Espírito Santo.

Eu tenho colocado essa objeção, tão fortemente quanto possível, para que todo seu peso possa aparecer. Permita-nos examiná-la, parte por parte.

(1) 'Que aquele que é nascido do Espírito é espiritual, é completamente bom'. Eu admito o texto, mas não a observação. Porque o texto afirma isto, e não mais, -- que todo homem que 'é nascido do Espírito', é um homem espiritual. Ele o é: Mas embora ele seja, ainda assim, não será completamente espiritual. Os cristãos de Corinto eram homens espirituais; ou eles não teriam sido cristãos, afinal; e, ainda assim, eles não eram completamente espirituais: eles eram, em parte, ainda carnais. -- 'Mas eles eram caídos da graça'. Paulo diz que não. Eles eram até mesmo, bebês em Cristo.

(2) 'Mas um homem não pode ser limpo, consagrado, santo, e ao mesmo tempo, impuro, não consagrado, não santo'.  Decerto que ele pode. Assim eram os Coríntios: 'Vocês estão lavados', diz o Apóstolo, 'vocês estão consagrados'; ou seja, limpos da 'fornicação, idolatria, bebedeira', e todos os outros pecados exteriores.

(I Corintios 6:9) 'Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus. E é o que alguns têm sido; mas haveis sido lavados, mas haveis sido consagrados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus, e pelo Espírito do nosso Deus';  e, ainda assim, ao mesmo tempo, em outro sentido da palavra, eles eram não consagrados; eles não estavam lavados; não interiormente limpos de toda inveja, conjecturas diabólicas, parcialidade, -- 'Mas certo, eles não tinham um novo coração e um velho coração, juntos'. Na verdade, eles tinham, porque, naquele mesmo momento, seus corações eram verdadeiramente, embora que não inteiramente, renovados. A mente carnal deles foi pregada na cruz; ainda assim, não estava totalmente destruída. -- (I Corintios 6:19) 'Ou não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?'; e é igualmente certo, que eles eram, em algum grau, carnais, ou seja, não santos.


2. 'Entretanto, existe uma Escritura a mais que irá colocar esse assunto fora de questão': (II Corintios 5:17) 'Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo'. 'Agora certamente um homem não pode ser uma nova criatura, e uma velha criatura de uma só vez'. Sim, ele pode: Ele pode ser parcialmente renovado, o que foi o mesmo caso com aqueles em Corinto. Eles foram, inegavelmente, 'renovados no espírito de suas mentes', ou eles não poderiam ter sido 'bebês em Cristo'. Ainda assim, eles não tinham a mente total que estava em Cristo, porque eles invejavam um ao outro. "Mas é dito expressamente: 'as velhas coisas se passaram: todas as coisas se fizeram novas'". Mas nós não devemos interpretar as palavras do Apóstolo, de maneira a que ele contradiga a si mesmo.  E se nós o tornarmos consistente consigo mesmo, o significado claro das palavras é este: Seu velho julgamento, concernente à justificação, santidade, felicidade, de fato, concernentes a todas as coisas de Deus, em geral, são agora passadas; assim como seus velhos desejos, objetivos, afeições, temperamentos e conversa. Todos esses se tornaram inegavelmente novos; grandemente mudados do que eles eram; e, ainda assim, embora eles sejam novos, eles não estão totalmente novos. Ainda, ele sente, para sua tristeza e vergonha, restos do velho homem, também a decadência manifesta de seus temperamentos e afeições, anteriores, posto que eles não podem obter vantagem alguma sobre ele, por quanto tempo ele vigia junto à oração. 

3. Todo este argumento: 'Se ele está limpo, ele é limpo'; 'Se ele está, ele é santo'; (e vinte expressões mais desse mesmo tipo podem ser facilmente empilhadas). É realmente nada melhor, do que brincar com palavras. É uma falácia argumentar do particular para o geral; inferir uma conclusão geral, de premissas particulares. Proponha a sentença inteira, e ela ficará assim: 'Se ele é santo, afinal, ele é santo completamente'. Isto não procede: todo bebê em Cristo é santo, e ainda assim, não completamente. Ele está salvo do pecado; ainda assim, não inteiramente: O pecado permanece, embora não reine. Se você pensar que ele não reina (nos bebês, pelo menos, quer seja este o caso com homens jovens ou adultos), você certamente não tem considerado a altura, a profundidade, a largura, e comprimento da lei de Deus; (mesmo a lei do amor, escrita por Paulo, no décimo-terceiro capítulo de Corintios); e que toda anomia, desconformidade, ou desvio, para com esta lei, é pecado. Agora, não existe desconformidade a ela, no coração ou vida de um crente? O que pode ser em um cristão adulto, é outra questão; mas que estranho deve ser para a natureza humana, aquele que pode possivelmente imaginar que este é o caso com todo bebê em Cristo! 

4. 'Portanto agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito'. (Romanos 8:1).

[O que se segue, por algumas páginas, é uma resposta a um documento, publicado na Cristian Magazine, p. 577-592. Eu estou surpreso que o Sr. Dodd tenha dado a tal documento um lugar em sua revista, o que é diretamente contrário ao Nono Artigo – Editor]
           
[Esta é a carta escrita por John Wesley ao Sr. Dodd – acréscimo da tradutora]

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05 de Março, 1767

Ao Editor de Lloyd´s Evening Post
           
"Senhor",

"Muitas vezes, o redator da Christian Magazine tem me atacado sem medo ou finura; e, por este meio, ele tem convencido seus leitores imparciais de uma coisa, pelo menos — que (como, vulgarmente, se diz) seus dedos comicham, para estar diante de mim; que ele tem o desejo passional de medir espadas comigo. Mas eu tenho um outro trabalho em minhas mãos: eu posso aplicar o pouco que resta da minha vida em propósitos melhores!"

"Os fatos de seu último ataque são esses: Trinta e cinco, ou, trinta e seis anos atrás, eu admirava muito o caráter do cristão perfeito desenhado por Clemens Alexandrinus. Há vinte e cinco, ou, vinte e seis anos, um pensamento me veio à mente: esboçar tal caráter, por mim mesmo; apenas, que de uma maneira mais bíblica e, principalmente, nas próprias palavras da Escrituras: isto eu intitulei: ‘O Caráter de um Metodista, acreditando que, curiosamente, poderia incitar mais pessoas a ler isso, e, também, que alguns preconceitos pudessem, desse modo, ser removidos do homem sincero".

"Mas, para que ninguém imaginasse que eu pretendia um elogio a mim, ou aos meus amigos, eu me resguardei contra isso, no próprio título da página, dizendo tanto em meu nome como no deles:'Não como se eu já tivesse atingindo, tampouco como se já fosse perfeito'".

“Para o mesmo efeito, eu falo na conclusão: ‘Esses são os mesmos princípios e práticas de nossa religião; sãos as marcas de um verdadeiro Metodista’; que é, um verdadeiro cristão; como eu, imediatamente, depois, expliquei: ‘por esses princípios apenas fazer com que aqueles que estão no ridículo, assim chamados, desejem ser distinguidos de outros homens’. ‘Por essas marcas fazer com que nós trabalhemos, para distinguir a nós mesmos daqueles, cujas mente e vida, não estão de acordo com o Evangelho de Cristo’”.

“Este inferior, ou Dr. Dodd, diz, ‘Um metodista é, de acordo com o Sr. Wesley, um que é perfeito, e não peca em pensamento, palavra, ou ação’. Senhor, queira me desculpar! Isso não é ‘de acordo com o Sr. Wesley’. Eu tenho dito com todas as palavras que eu não sou perfeito; e, ainda você me permite ser um Metodista! Eu disse a você, categoricamente, que eu não consegui o caráter que eu esbocei. Você irá fixar isso em mim, apesar dos meus dentes? ‘Mas o Sr. Wesley diz que outros Metodistas têm’, Eu não digo tal coisa! O que eu digo, depois de ter dado um relato bíblico de um perfeito cristão, é isso: ‘Por essas marcas o Metodista deseja ser distinguido de outros homens; por essas marcas nós trabalhamos para distinguir a nós mesmos’. E você não deseja e trabalha para o mesmo propósito?”.

"Mas você insiste: 'O Sr. Wesley afirma que o Metodista (isto é, todos os Metodistas) é, perfeitamente, santo e íntegro'. Onde eu afirmei isso? Não, em alguma propaganda religiosa! Diante disso, eu afirmo justo o contrário; e que eu afirmo isso, seja lá onde for, é mais do que eu sei.  Fique à vontade, senhor, de assinalar o local: até que isso seja feito, tudo o que você acrescentou (amargo, o suficiente) é mera 'trovoada'; e os Metodistas (assim chamados) podem ainda declarar (sem qualquer punição de sua sinceridade) que eles não vêm à mesa santa 'confiando em sua própria retidão, mas nas múltiplas e grandiosas misericórdias de Deus'".
Eu sou, senhor,
Seu,
John Wesley
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®            Esses são reunidos, como se eles fossem a mesma coisa. Mas eles não o são. A culpa é uma coisa, o poder outra, e a existência outra, ainda. Que os crentes estão livres da culpa e poder do pecado nós admitimos; que eles estão livres da existência dele, nós negamos. Nem isto, de alguma maneira, se conclui desses textos. Um homem pode ter o Espírito de Deus habitando nele, e pode 'caminhar, segundo o Espírito',  embora ele sinta ainda 'a carne entregando-se à luxúria, contra o Espírito'.

5. "Mas a 'igreja é o corpo de Cristo' - (Colossenses 1:24) 'Regozijo-me agora no que padeço por vós, e na minha carne cumpro o resto das aflições de Cristo, pelo seu corpo, que é a igreja'; isto implica que seus membros são lavados de todas as suas sujidades; do contrário irá se seguir que Cristo e Belial estão incorporados um com o outro". 

®            Não. Pelo fato de 'aqueles que são o corpo místico de Cristo, ainda sentirem a carne cobiçando contra o Espírito', isto não quer dizer que Cristo tem alguma camaradagem com o diabo; ou com aquele pecado que ele os capacita a resistir e dominar!

6. "Mas os cristãos 'chegaram ao monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial', onde 'nada corrompido entra?".' (Hebreus 12:22): Ou seja, céu e terra, todos concordam, todos são uma grande família.

®            E são igualmente santos e corrompidos, enquanto eles 'caminham segundo o Espírito'; embora conscientes que existe um outro princípio neles, e que 'estes são contrários um ao outro'.

7. 'Mas os cristãos estão reconciliados para Deus. Agora isto não poderia ser, se alguma mente carnal restasse; porque esta é inimiga contra Deus: Conseqüentemente, nenhuma reconciliação pode ser efetiva, a não ser através de sua total destruição'.

®            Nós estamos 'reconciliados para Deus, através do sangue na cruz': E, naquele momento, a corrupção da natureza, que é inimiga de Deus, foi colocada debaixo de nossos pés; a carne não teve mais domínio sobre nós. Mas ela ainda existe; e ela ainda é, em sua  natureza, inimiga com Deus, cobiçando contra seu Espírito. 

8. "Mas em (Gálatas 5:24) 'E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências'". "Mais do que isto', (Colossenses 3:9) 'eles já despiram o velho homem com seus feitos'".

®            Eles o fizeram; e, no sentido acima descrito, 'as coisas velhas são passadas, e todas as coisas se tornaram novas'. Existe ema centena de textos, e eles  podem ser citados, para o mesmo efeito; e todos irão admitir a mesma resposta "Mas, para dizer tudo em uma só palavra': (Efésios 5:25) 'Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra; para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível'". E, assim, será no final: Mas não foi, ainda, desde o começo.

9. 'Mas que a experiência fala: Todos os que são justificados encontram, naquele momento, uma liberdade absoluta de todos os pecados'.

®            Isto eu duvido; mas se eles encontram, isto acontece, mesmo depois? Caso não alcancem coisa alguma. – 'Se eles não encontram, é culpa deles'. Isto necessita ser provado.  

10. 'Mas, na própria natureza das coisas, um homem pode ter orgulho nele, e não ser orgulhoso; ter ira, e ainda assim, não estar irado?'

®            Um homem pode ter orgulho nele; pode pensar, em algumas particularidades, acima do que deveria pensar, (e, assim, ser orgulhoso, naquele particular), mas, no entanto, não ser um homem orgulhoso, em seu caráter geral. Ele pode ter raiva nele; sim, e uma forte inclinação para uma raiva furiosa, sem dar oportunidade a ela. – 'Mas a ira e o orgulho podem estar naquele coração, onde apenas a mansidão e humildade são sentidos?'. Não. Mas algum orgulho e ira podem estar no coração, onde existe humildade e mansidão.

'É não é proveitoso dizer que esses temperamentos estão lá, mas que eles não reinam:porque o pecado não pode, em alguma espécie ou grau, existir onde ele não reina; porque a culpa e o poder são propriedades essenciais do pecado. Portanto, onde um deles está, todos deverão estar'.

®            De fato, estranho! 'O pecado não pode, em alguma espécie ou grau, existir, onde ele não reina?'. Absolutamente contrário, a toda experiência, a todas as Escrituras, a todo bom-senso. Ressentimento de uma afronta é pecado; é anomia, desconformidade para com a lei do amor. Isto tem existido em mim milhares de vezes. Ainda assim, ele não reinou, e não reina. --

'Mas a culpa e poder são propriedades essenciais do pecado; portanto, onde um está, todos deverão estar'.  

®            Não. No exemplo, diante de nós, se o ressentimento que eu sinto não prolifera, mesmo por um momento, não existe culpa, afinal; nenhuma condenação de Deus sobre esse assunto. E, neste caso, ele não tem poder: embora ele 'cobice contra o Espírito',  ele não pode prevalecer. Aqui, portanto, como, em milhares de exemplos, existe pecado, sem tanto culpa ou poder.

11. 'Mas a suposição de haver pecado em um crente, é significativo com todas as ciosas assustadoras e desanimadoras. Isto sugere a contenda com o poder que tem a possessão de nossa força; mantêm usurpação dele de nossos corações; e lá promove a guerra contra nosso Redentor'.

®            Não assim: A supondo-se que o pecado esteja em nós, isto não implica que ele tem a possessão de nossas forças; não mais do que um homem crucificado tem a posse daqueles que o crucificaram. Como implica pouco que 'o pecado mantenha sua usurpação de nossos corações'. O usurpador é destronado. Ele permanece, de fato, onde ele uma vez reinou; mas permanece algemado. De maneira que se, em algum sentido, ele 'efetua a guerra', ainda assim, ele vai se tornando mais e mais fraco, enquanto o crente segue de força e força, em vitória, em vitória.

12. 'Eu ainda não estou satisfeito: Ele que tem pecado nele, é um escravo do pecado. Portanto, você supõe que um homem seja santificado, enquanto ele é escravo do pecado. Agora, se você admite que os homens possam ser justificados, enquanto eles têm orgulho, ira, ou descrença neles; mais ainda, se você afirma que esses estão (pelo menos por um tempo), em todo aquele que é justificado; qual a surpresa de termos tantos crentes orgulhosos, irados, descrentes?!

®            Eu não suponho que algum homem que seja justificado, seja um escravo do pecado. Ainda assim, eu suponho que o pecado permaneça (pelo menos por um tempo), em todo aquele que está justificado.

'Mas, se o pecado permanece em um crente, ele é um homem pecador: Se o orgulho, por exemplo, ele é orgulhoso; se obstinação, então, ele é obstinado; se descrença, então, ele é um descrente; conseqüentemente, não é um crente, afinal. Como, então, ele se difere dos descrentes, dos homens degenerados?'.

®            Isto ainda é brincar com as palavras. Significa não mais do que, se existe pecado, orgulho, obstinação nele, então – existe pecado, orgulho, obstinação. E isto, ninguém pode negar. Neste sentido, então, ele é orgulho, ou obstinado. Mas ele não é orgulhoso ou obstinado, no mesmo sentido que os descrentes são; ou seja, governados pelo orgulho e vontade própria. Neste contexto, ele difere dos homens degenerados. Estes obedecem ao pecado. Ele não. A carne está em ambos. Mas eles caminham 'segundo a carne'; e ele 'caminha segundo o Espírito'.

'Mas como um descrente pode ser um crente?'.

®            Estas ´palavras têm dois significados. Elas significam tanto nenhuma fé, quanto pouca fé; tanto a ausência da fé, ou a fraqueza dela. No primeiro sentido,  o descrente não é um crente; no segundo, eles são todos bebês. A fé deles está comumente misturada com dúvida e temor; ou seja, no segundo sentido, com descrença. 'Por que temeis', diz o Senhor, 'ó homens de pouca fé?' (Mateus 8:26). Novamente: 'Ó tu, homem de pouca fé, porque motivo duvidais?'. Vocês vêem aqui, que havia descrença nos crentes; pouca fé e muita fé.

13. 'Mas esta doutrina de que o pecado permanece no crente; de que um homem pode estar no favor de Deus, enquanto ele tem pecado em seu coração; certamente, tende a encorajar os homens ao pecado'.

®            Entenda a proposição corretamente, e tal conseqüência não irá se seguir. Um homem pode estar no favor de Deus, embora ele sinta pecado; mas não se ele se entrega a ele. Ter pecado não significa perder o favor de Deus; mas dar oportunidade a ele, sim. Embora a carne em vocês 'cobicem contra o Espírito', vocês podem ainda ser filhos de Deus; mas, se vocês 'caminham segundo a carne', vocês são filhos do diabo. Agora, esta doutrina não encoraja a obedecer ao pecado, mas a resistir a ele, com todas as nossas forças.

V

1. A somatória de tudo é esta: Existem, em cada pessoa, mesmo depois que ela é justificada, dois princípios contrários: natureza e graça, denominada por Paulo, de carne e Espírito. Por isso, embora os bebês em Cristo estejam santificados, ainda assim, será apenas em parte. Em um grau, de acordo com a medida da sua fé, eles são espirituais; mas, em outro, são carnais. Desta forma, os crentes são continuamente exortados a vigiar contra a carne, tanto quanto contra o mundo e o diabo. E isto concorda com a experiência constante dos filhos de Deus. Enquanto eles sentem esse testemunho, em si mesmos, eles sentem sua vontade, não totalmente resignada à vontade de Deus. Eles sabem que eles estão Nele; mas ainda, encontram um coração pronto para se separar de Dele; uma propensão para o mal, em muitas instâncias, e uma relutância para o que é bom. A doutrina contrária é totalmente nova; nunca ouvida na Igreja de Cristo, desde o tempo de sua vinda para o mundo, até o tempo do Conde Zinzendorf; e ela é atendida com as mais fatais conseqüências. Ela remove a vigilância contra nossa natureza pecaminosa; contra a Dalila que nos disseram que tinha ido, embora ela ainda esteja em nosso seio. Ela faz em pedaços a proteção dos crentes fracos, despojados de sua fé, e, assim, deixando-os expostos a todos os assaltos do mundo, da carne e do diabo.

2. Que possamos, portanto, segurar firme a doutrina perfeita, 'uma vez entregue para os santos', e concedida aos oráculos de Deus na terra, para todas as gerações que se seguiram: A de que, embora estejamos renovados, limpos, purificados, santificados, e verdadeiramente crermos em Cristo, no momento; ainda assim, nós não estamos renovados, limpos, purificados, completamente; já que a carne; a natureza pecaminosa, ainda permanece (embora dominada), e guerreia contra o Espírito. Quanto mais usamos de toda diligência para 'lutar a boa luta da fé'. Quanto mais sinceramente 'vigiamos e oramos' contra o inimigo nela. Quanto mais cuidadosamente permitimos nos 'colocar no amor total de Deus'; embora, 'contendamos com a carne, e sangue e principados, e com poderes, e espíritos pecaminosos, nos altos lugares', mais seremos capazes de resistir, no dia de tentação; e, tendo feito tudo, permanecermos.


[Editado por Angel Miller, estudante da Northwest Nazarene College (Nampa, ID), com correções por George Lyons para a Wesley Center for Applied Theology.]

O Testemunho de Nosso próprio Espírito



             'Porque a nossa glória é esta: o testemunho de nossa consciência, de que, com simplicidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria carnal, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo e maiormente convosco'. (II Cor. 1:12)

1. Tal é a voz de cada crente verdadeiro em Cristo; por quanto tempo ele habite na fé e amor. 'Aquele que me segue', diz nosso Senhor, 'não caminha na escuridão': E, enquanto ele tem a luz, ele se regozija nela. Como ele tem 'recebido o Senhor Jesus', então, ele caminha nele; e, enquanto ele caminha nele, a exortação do Apóstolo toma lugar em sua alma, dia a dia, 'Regozije-se no Senhor, sempre e, novamente, eu digo: Regozije-se'.

2. Mas, para que não construamos nossa casa na areia, (a fim de que, quando a chuva vier, e os ventos soprarem, e a correnteza se levantar e bater nela, ela não caia, e grande seja sua queda nisto), eu pretendo mostrar, no discurso a seguir, qual é a natureza e alicerce da alegria cristã. Nós sabemos, em geral, que é aquela paz feliz; aquela satisfação calma do espírito, que se levanta de tal testemunho de sua consciência. Como é aqui descrito pelo Apóstolo. Mas, com o objetivo de compreender isto mais completamente, será necessário pesar todas as suas palavras; de onde irá facilmente aparecer o que nós entendemos por consciência, e o que compreendemos por testemunho dela; e, também, como ele, que tem esse testemunho, se regozija, mais e mais. 

3. Primeiro, o que nós entendemos por consciência? Qual é o significado dessa palavra, que está em todas as bocas? Alguém poderia imaginar que seja uma coisa excessivamente difícil de descobrir, quando nós consideramos quão largo número de volumes tem sido escrito, de tempos em tempos, sobre esse assunto; e como todos os tesouros do conhecimento antigo e moderno têm sido esquadrinhados, a fim de explicá-la. Ainda assim, é para se temer, que ela não tenha recebido muita luz de todas essas investigações elaboradas. Será que, em vez disso, a maioria desses autores não tem complicado a causa; 'obscurecendo as idéias, através de palavras sem sabedoria'; trazendo confusão ao objeto, claro em si mesmo, e fácil de ser entendido? Mesmo porque, todo homem que tiver um coração honesto, logo irá entender do que se trata, deixando de lado apenas as palavras mais difíceis.

            4. Deus nos fez criaturas pensantes; capazes de perceber o que é presente, e de refletir ou olhar para trás no que já é passado. Em particular, nós somos capazes de perceber o que se passa em nossos próprios corações ou vidas; de saber o que nós sentimos ou fazemos; mesmo enquanto acontece; ou quando já se passou. É isto, o que queremos dizer, quando afirmamos que o homem é um ser consciente. Ele tem uma consciência; uma percepção interior; das coisas presentes e passadas, relativas a si mesmo; ao seu próprio temperamento e comportamento exterior. Mas o que nós usualmente denominamos consciência implica em alguma coisa mais do que isto. Ela não é meramente o conhecimento de nosso presente, e a lembrança de nossa vida precedente. Lembrar; dar testemunho, tanto do passado, quanto das coisas presentes, é apenas uma, e a menor das tarefas da consciência: Sua principal ocupação é desculpar ou acusar; aprovar ou desaprovar; absolver ou condenar.

5. Alguns dos recentes escritores, de fato, têm dado um novo nome para isto, e têm escolhido compreendê-la em um sentido moral. Mas a antiga palavra parece preferível à nova, por ser mais comum e familiar entre os homens, e, por conseguinte, mais fácil de ser entendida. Para os cristãos é inegavelmente preferível, por outro razão também, ou seja, porque é bíblica; porque é a palavra, que a sabedoria de Deus tem escolhido usar nas escritos inspirados. 

E, de acordo com o significado, em que geralmente ela é usada na Bíblia, particularmente nas Epístolas de Paulo, nós podemos entender por consciência, a faculdade ou poder, implantados por Deus, em toda a alma que vem ao mundo, para perceber o que é certo ou errado em seu próprio coração ou vida; em seus próprios temperamentos, pensamentos, palavras e ações.

            6. Mas qual é a regra, por meio da qual, os homens julgam o que é certo ou errado? Por meio do que suas consciências são direcionadas? A regra dos pagãos, como o Apóstolo ensina em outra parte, é 'a lei escrita em seus corações'; através do dedo de Deus; 'suas consciências também testemunhando', quer caminhem por essa regra ou não; 'e seus pensamentos o meio, enquanto acusando ou mesmo desculpando'; absolvendo, defendendo a eles. Em (Romanos 2:14-15) 'Porque, quando os gentios, que não têm lei, fazem naturalmente as coisas que são da lei, não tendo eles lei, para si mesmos são lei, os quais mostram a obra da lei escrita no seu coração, testificando juntamente a sua consciência e os seus pensamentos, quer acusando-os, quer defendendo-os'. Mas a regra cristã - de certo e errado - é a palavra de Deus; os escritos do Velho e Novo Testamento; todos os que os Profetas e 'homens santos do passado' escreveram, 'uma vez que eles eram movidos pelo Espírito Santo'; todas aquelas Escrituras que foram dadas, por inspiração de Deus, e que são, de fato, proveitosas para a doutrina, ou ensinando toda a vontade de Deus; por reprovar o que é contrário a isto; por correção ou erro; e por instrução; ou nos exercitando, na retidão. (II Tim. 3:16) 'Toda Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar; para redargüir; para corrigir; para instruir em justiça'.  

Esta é uma lanterna nos pés de um cristão; e uma luz em todos os seus caminhos. Isto somente ele recebe como sua regra de certo ou errado; do que quer que seja bom ou mau. Ele nada considera bom, a não ser o que está aqui reunido, se diretamente, ou através de conseqüência clara; ele nada considera como sendo mau, a não ser o que aqui é proibido, se em termos, ou através de inferência inegável. O que quer que as Escrituras, nem proíbem, nem ordenam, se diretamente ou por conseqüência clara, ele acredita ser de natureza indiferente; ser, em si mesma, nem bom, nem mau; isto sendo a totalidade ou a regra exterior única, por meio da qual sua consciência deverá ser dirigida em todas as coisas. 

            7.  E se ela for dirigida, por meio disso, então, realmente ele tem 'a resposta da boa consciência em direção a Deus'. A boa consciência é o que em outros lugares é denominada pelo Apostolo de 'uma consciência, sem ofensa'. Assim, o que ele, num determinado tempo expressa como, 'Eu tenho vivido, diante de Deus, com toda a boa consciência, até esse dia' (Atos 23:1), ele denota em outra, através daquela expressão, 'E, por isso, procuro sempre ter uma consciência sem ofensa, tanto para com Deus, como para com os homens' (Atos 24:16). Agora, com esse objetivo, é absolutamente requerido:

1o. Um correto entendimento da palavra de Deus, ou sua 'vontade santa, aceitável, e perfeita', com respeito a nós, como é revelada nela. Já que é impossível que caminhemos por uma regra, se nós não conhecemos os meios para isto.

2o. Um conhecimento verdadeiro de nós mesmos (o que bem poucos compreenderam!); um conhecimento de nossos corações e nossas vidas; ou nossos temperamentos interiores, e conversas exteriores: Vendo que, se nós não os conhecemos, não é possível que possamos compará-los com nossa regra.

3o. É requerida uma concordância de nossos corações e vidas; ou de nossos temperamentos e conversas; nossos pensamentos; e palavras; e obras, com aquela regra; com a palavra escrita de Deus. Já que, sem isto, se nós tivermos alguma consciência afinal, ela poderá ser apenas uma má consciência.

4o.  Uma percepção interior dessa concordância com nossa regra: E essa percepção habitual; essa percepção interior, por si mesma, é necessariamente a boa consciência; ou, em outra frase do Apóstolo, 'a consciência sem ofensa, para com Deus, e para com os homens'. 

8.  Mas, quem quer que deseje ter uma consciência assim, sem ofensa, que ele procure dispor do alicerce correto. E que se lembre que, 'outro alicerce', como esse, 'homem algum pode estabelecer, além do que já está disposto, equiparando-se a Jesus Cristo'. E que ele também esteja atento, que nenhum homem construa nele, a não ser, através da fé; que nenhum homem seja parceiro de Cristo, até que ele possa claramente testificar, 'A vida que eu agora vivo, eu vivo pela fé no Filho de Deus'; nele que agora é revelado no meu coração; aquele que 'me amou, e que se deu por mim'. Tão somente a fé é aquela evidência; aquela convicção; aquela demonstração das coisas invisíveis; por meio das quais os olhos de nosso entendimento são abertos, e a luz divina é derramada sobre eles, e nós 'vemos as coisas maravilhosas da lei de Deus'; sua excelência e pureza; sua altura, profundidade, comprimento e largura, e todo o mandamento contido nela.

É por meio da fé que, observando 'a luz da glória de Deus, na face de Jesus Cristo', nós percebemos, como em um vidro, tudo o que existe em nós mesmos; sim, os movimentos mais íntimos de nossas almas. E é somente através dela que aquele amor abençoado de Deus pode ser 'espalhado em nossos corações'; capacitando-nos a, assim, amarmos uns aos outros, como Cristo nos amou. Através dela, está aquela graciosa promessa cumprida a todo o Israel de Deus, (Hebreus 8:10) 'Porque este é o concerto que, depois daqueles dias, farei com a casa de Israel, diz o Senhor; porei as minhas leis no se entendimento, e em seu coração as escreverei (ou imprimirei); e eu lhes serei por Deus, e eles me serão por povo', produzindo em suas almas, por meio disto, uma completa concordância com sua lei santa e perfeita, e 'trazendo para o cativeiro todo pensamento para a a obediência de Cristo'.  
           
            E, como uma árvore má não pode produzir bons frutos; então, uma árvore boa não pode produzir frutos maus. Como o coração de um crente, por conseguinte, assim como sua vida, é completamente amoldada à regra dos mandamentos de Deus; pela consciência disto, ele pode dar glória a Deus, e dizer com o Apóstolo, 'Este é nosso regozijo,o testemunho de nossa consciência, que na simplicidade e sinceridade divina; não com a sabedoria da carne, mas através da graça de Deus, nós temos nossa conversa no mundo'.

            9. 'Nós temos nossa conversa': O Apóstolo, no original expressa isto por uma simples palavra, cujo significa é excessivamente amplo, falando em toda nossa conduta; sim, todas as circunstâncias interiores e exteriores; se relativas à nossa alma ou nosso corpo. Ela inclui todo movimento de nosso coração, de nossa língua, nossas mãos e membros corpóreos. Ela se estende a todas as nossas ações e palavras;  ao emprego de todos os nosso poderes e faculdades; à maneira de usar cada talento que temos recebido, com respeito tanto a Deus, como a homem.


            10. 'Nós temos nossa conversa no mundo'; mesmo no mundo do descrente: Não apenas entre os filhos de Deus; (que são comparativamente um número menor); mas em meio aos filhos do diabo; em meio daqueles que jazem na maldade; em meio ao pecaminoso. Que mundo é este! Quão completamente impregnado com o espírito, o mundo respira continuamente. Como nosso Deus é bom, e faz o bem, então o deus do mundo e seus filhos são maus, e praticam o mau (tanto quanto podem) a todos os filhos de Deus. Como o pai deles, eles estão sempre esperando em emboscada; ou 'caminhando ao redor, buscando a quem possam devorar'; usando de fraude ou força; astúcias secretas, ou violência aberta, para destruírem aqueles que não são do mundo; continuamente opondo-se à nossas almas, e através de armas novas e antigas; e conselhos de todos os tipos; esforçando-se para trazê-las de volta para a armadilha do diabo, para a estrada larga que conduz à destruição.

11. 'Nós temos tido nossa' completa 'conversação', em tal mundo, 'na simplicidade e sinceridade santa'. Primeiro, na simplicidade: Isto é o que nosso Senhor ordena, sob o nome de 'olho único'. 'A luz do corpo', diz ele, 'é o olho. Se, por conseguinte, teu olho for um só, todo seu corpo deverá estar cheio de luz'. O significado disto é que: O que o olho é para o corpo, a intenção é para com todas as palavras e ações: Se, portanto, esse olho de tua alma for único, todas as tuas ações e conversa deverão estar 'cheias de luz', da luz dos céus, do amor, paz e alegria no Espírito Santo.

            Nós somos, então, simples de coração, quando o olho de nossa mente está singularmente fixado em Deus; quando em todas as coisas, nós direcionamos a Deus somente, nossa porção, nossa força, nossa felicidade, nossa grande e excedente gratificação, tudo que é nosso, no tempo e na eternidade. Esta é a simplicidade; quando o olho firme, uma intenção singular de promover sua glória, de fazer, e suportar a sua abençoada vontade, corre através de toda nossa alma, preenche nosso coração, e é a fonte constante de todos os nossos pensamentos, desejos e propósitos.

12. 'Nós temos nossa conversa no mundo', Em Segundo Lugar, 'em sinceridade santa'. A diferença entre simplicidade e sinceridade parece ser principalmente esta: A simplicidade cuida a intenção, em si mesma; a sinceridade, da execução dela; e essa sinceridade não diz respeito apenas às nossas palavras, mas a toda nossa conversação, como descrito acima. Não deve ser entendida aqui em seu sentido restrito, no qual o próprio Paulo a usa, algumas vezes, falando a verdade, ou abstendo-se da fraude, da astúcia, e dissimulação; mas, em um significado mais amplo, atingindo o objetivo que almejamos, por meio da simplicidade. Concordantemente, aqui ela implica que nós, de fato, façamos, e falemos tudo para a glória de Deus; que todas as nossas palavras não estão apenas apontadas para isto, mas presentemente conduzem a isto; que todas as nossas ações fluem dessa mesma correnteza, uniformemente subserviente a essa grande finalidade; e que, em toda nossa vida, nós estamos nos movendo direto em direção a Deus; e isto, continuamente; caminhando firmemente na estrada da santidade; nos passos da justiça, misericórdia e verdade.    

13. Essa sinceridade é denominada pelo Apóstolo, sinceridade santa, ou sinceridade de Deus, para prevenir nosso engano, ou para não confundi-la com a sinceridade dos pagãos (já que eles têm também uma espécie de sinceridade entre eles, pela qual eles professam uma veneração nada pequena); igualmente para denotar o objeto e a finalidade dela; como de toda virtude cristã, vendo que o que quer que não se incline, enfim, para Deus; submerge em meio 'aos elementos desprezíveis do mundo'. Por produzi-la de acordo com a sinceridade de Deus, ele também aponta para o Autor dela, o 'Pai da luz, de quem todo dom bom e perfeito provém'; o que é ainda mais claramente declarado nas palavras que se segue, 'Não com a sabedoria da carne, mas através da graça de Deus'.      

14. 'Não com a sabedoria da carne'. Como se ele tivesse dito: 'Nós não podemos conversar, no mundo, através de alguma força natural de entendimento; nem por meio de algum conhecimento e sabedoria naturalmente conseguidos. Nós não podemos obter essa simplicidade, ou praticar essa sinceridade, tanto pela força do bom senso, boa natureza, quanto boas maneiras. Elas excedem toda nossa coragem e resolução natural; assim como todos nossos preceitos de filosofia. O poder do comportamento não é capaz de nos preparar para isto; nem as regras humanas mais extraordinárias. Nem poderia eu, Paulo, alguma vez alcançar isto, não obstante todas as vantagens que eu desfrutei, por quanto tempo eu estive na carne, em meu estado natural, e a procurava apenas através da sabedoria mundana e natural'.


            Ainda assim, se algum homem pudesse, certamente, o próprio Paulo teria alcançado isto, através daquela sabedoria: Uma vez que nós dificilmente poderemos conceber alguém, que tivesse sido mais altamente favorecido, com todos os dons naturais e de educação. Além dessas habilidades naturais, provavelmente não inferiores àquelas de qualquer pessoa, então, na terra, ele tinha todos os benefícios do aprendizado, estudando na Universidade de Tarsus; e mais tarde, sendo trazido, até os pés de Gamaliel, uma pessoa da mais alta consideração, pelo conhecimento e integridade, que havia, então, em toda a nação judaica. E ele tinha todas as vantagens possíveis da educação religiosa, sendo fariseu; o filho de um fariseu, preparado na mais estreita seita ou profissão, distinguida de todas as outras, por uma mais eminente severidade.[Os fariseus eram membros de uma antiga seita judaica que se distinguia pela observância estrita e formal dos ritos da lei mosaica]. E, por isso, ele tinha 'vantagem acima de muitos' outros, 'que eram seus iguais', em anos, 'sendo mais abundantemente zeloso', com o que quer que ele pense fosse agradar a Deus; 'como no tocante à retidão da lei, irrepreensível'. Mas não seria, por meio disto, que ele alcançaria essa simplicidade e sinceridade santa.Tudo fora trabalho perdido, em sentido profundo e penetrante, pelo qual ele se viu, por fim, constrangido a clamar, 'Mas o que para mim era ganho, eu o reputei perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas essas coisas, e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo; e seja achado nele; não tendo a minha justiça que vem da lei, mas a que vem pela fé em Cristo, a saber, a justiça que vem de Deus, pela fé '. (Filipenses 3:7-9).

15. Não poderia ser que ele, alguma vez, ele tivesse alcançado isto, a não ser pelo 'conhecimento excelente de Jesus Cristo', nosso Senhor; ou 'pela graça de Deus', -- uma outra expressão quase da mesma importância.  Algumas vezes é entendido, por 'graça de Deus', aquele amor gratuito, aquela misericórdia imerecida, pelos quais eu, um pecador, através dos méritos de Cristo, sou agora reconciliado para Deus. Mas, neste lugar, é preferível que signifique aquele poder de Deus, o Espírito Santo, que 'opera em nós, tanto o  desejar, como o fazer o que é do agrado Dele'. Assim como, no primeiro sentido da graça de Deus, seu amor redentor é manifestado para nossas almas; a graça de Deus, no segundo sentido, é o poder de seu Espírito que toma lugar dessa forma. Agora, nós podemos realizar, através de Deus, o que para o homem era impossível. Agora nós podemos ordenar nossa conversa corretamente. Nos podemos fazer todas as coisas, na luz e poder daquele amor, através do qual Cristo nos fortalece. Nós agora temos 'o testemunho de nossa consciência', o que nunca pudemos ter pela sabedoria da carne; 'para que na simplicidade e sinceridade santa, nós possamos ter nossa conversa no mundo'.

16. Este é propriamente o alicerce da alegria cristã. Nós podemos agora, por conseguinte, rapidamente conceber, como ele que tem esse testemunho, em si mesmo, regozija-se sempre mais. 'Minha alma', ele pode dizer, 'magnifica o Senhor, e meu espírito regozija-se em Deus meu Salvador'. Eu me regozijo nele, que, através de seu amor, que eu não merecia; de sua misericórdia livre e terna, 'conduziu-me a este estado de salvação', onde, através de seu poder, eu agora permaneço. Eu me regozijo, porque seu Espírito testemunha com meu espírito que eu sou comprado com o sangue do Cordeiro; e que, crendo nele, 'eu sou um membro de Cristo, um filho de Deus, e um herdeiro do reino dos céus'.

Eu me regozijo, porque o senso do amor de Deus por mim tem, através do mesmo Espírito, forjado-me a amar a Ele; e, por amor a Ele, amar todos os filhos dos homens; toda alma que Ele criou. Eu me regozijo, porque Ele me permite sentir 'a mente que estava em Cristo': -- Simplicidade: um único olho, em direção a Ele; em cada movimento de meu coração; poder sempre fixar o olho amoroso de minha alma Nele que 'me amou, e se deu por mim'; para almejar a ele somente, em sua vontade gloriosa, naquilo que eu pensar, falar ou fazer: -- Pureza: desejando nada mais do que Deus; 'crucificando a carne com suas afeições e luxúrias'; 'colocando minhas afeições em todas as coisas que estão acima, não nas coisas da terra': -- Santidade: a recuperação da imagem de Deus: uma renovação da alma 'em busca de seu semblante':  -- E Sinceridade Santa: direcionando todas as minhas palavras e obras, de modo a conduzir-me para sua glória. Nisto, eu igualmente me regozijo; sim, e irei me regozijar, porque minha consciência testemunha, no Espírito Santo, por meio da luz que ele continuamente derrama sobre ela, que 'caminha digna da vocação, por meio da qual, eu sou chamado'; para que eu me 'abstenha de toda a aparência do mal'; fugindo do pecado, como da face de uma serpente; para que eu possa fazer, na medida de minhas possibilidades, todo bem, de toda a espécie, a todos os homens; para que eu siga meu Senhor, em todos os meus passos, e faça o que é aceitável aos seus olhos. Eu me regozijo, porque eu vejo e sinto, através da inspiração do Espírito Santo de Deus, que todas as minhas obras são forjadas nele, e que é ele que opera todas as minhas obras em mim. Eu me regozijo, em ver, por meio da luz de Deus, que brilha, em meu coração, para que eu tenho o poder de caminhar, em seus caminhos; e que, através de sua graça, eu não vire de um lado para outro; andando a esmo.

17. Tal é o alicerce e a natureza daquela alegria, por meio da qual um cristão adulto se regozija sempre mais. E, de tudo isto, nós podemos facilmente inferir que:

1o.  Esta não é uma alegria natural:

Ela não nasce de uma causa natural: Não de alguma disposição animada. Isto pode dar um começo passageiro de alegria; mas o cristão regozija-se sempre. Ela não pode ser devida à saúde do corpo, ou bem-estar; à fortaleza e integridade física: já que ela é igualmente forte na doença e na dor; sim, talvez, mais forte do que antes. Muitos cristãos nunca antes tinham experimentado alguma alegria que pudesse ser comparada com aquela que, então, preencheu suas almas, quando o corpo esteve quase desgastado pela dor, ou consumido com doença degenerativa. Menos do que tudo, ela pode ser atribuída à prosperidade exterior, ao favor dos homens, ou abundância de bens materiais; uma vez que, então, principalmente quando a fé deles tem sido testada, como com fogo, por meio de todas as aflições exteriores, é que os filhos de Deus regozijam-se Nele - a quem eles amam sem ver, com alegria inexprimível. E certamente homem algum se regozijaria, como aqueles que foram usados como 'vileza e escória do mundo'; que vaguearam de um lado para outro, necessitando de todas coisas; famintos, com frio, nus; aqueles que tinham provado, não apenas da 'cruel zombaria', mas, 'muito mais dos cativeiros e aprisionamentos'; sim, que, por fim, 'não consideraram suas vidas, prezadas, a si mesmos, de modo que eles poderiam terminar o curso de suas vidas com alegria'.      

18. Das considerações precedentes, podemos inferir:

2o. Que aquela alegria de um cristão não surge de qualquer consciência ignorante; de sua condição de não discernir o bem do mal:

Muito longe disto, ele era um completo estranho para essa alegria, até que os olhos de seu entendimento foram abertos; não conhecia, até que teve os sentidos espirituais adequados para discernirem o bem do mal. E, agora, o olho de sua alma não se tornou obscurecido: ele nunca foi tão perspicaz anteriormente: ele tem uma percepção tão rápida das menores coisas, que é completamente surpreendente para um homem natural. Assim como uma partícula de pó é visível aos raios de sol; assim para aquele que caminha na luz, nos feixes de luz de seu sol não criado, toda partícula de pecado é visível. Nem ele consegue fechar os olhos da consciência mais: aquele sono está fora dele. Sua alma está sempre amplamente acordada: não mais cochilos ou mãos flexíveis para descansar! Ele está sempre desperto, e ouvindo o que o seu Senhor diz com respeito a ele: e sempre se regozijando 'em buscar a Ele que é invisível'.

19.    Também que:

3o.  A alegria do cristão não surge de algum embotamento ou insensibilidade da consciência.

            É verdade que uma espécie de alegria pode surgir disto, naqueles cujos corações insensatos estão enegrecidos'; cujos corações são empedernidos, insensíveis, estúpidos, e, conseqüentemente, sem entendimento espiritual. Por causa de seus corações insensatos, insensíveis, eles podem regozijar-se, até mesmo, quando cometem pecados; e isto eles podem provavelmente chamar de liberdade! – o que é, de fato, mera embriaguez da alma; uma dormência fatal do espírito; uma insensibilidade estúpida de uma consciência sagrada. Pelo contrário, um cristão tem a mais extraordinária sensibilidade; tal que ele nunca pôde conceber anteriormente. Ele nunca teve tal ternura de consciência, como a que teve, desde que o amor de Deus tem reinado em seu coração. E isto também é sua glória e alegria – aquela que Deus tem ouvido em suas orações diariamente:

            'Ó que minha terna alma possa voar, à primeira aproximação odiosa do mal; rápido, como a menina dos olhos, o toque mais leve do pecado sinta'.

20. Para concluir: A alegria cristã é a alegria na obediência; alegria em amar a Deus e manter seus mandamentos: e, ainda assim, não os mantendo, como se nós estivéssemos, por meio disto, cumprindo os termos das obras da aliança; como se, por algumas obras ou retidão nossas, estivéssemos à procura do perdão e aceitação com Deus. Não, desta forma: Nós já estamos perdoados e aceitos, através da misericórdia de Deus, em Jesus Cristo. Não, como se nós estivéssemos, através de nossa própria obediência, procurando ter vida; a vida da morte do pecado: Isto também nós já temos, através da graça de Deus. 'Ele vivificou, aquele que estava morto no pecado'; e agora nós estamos 'vivos para Deus, por meio de Jesus Cristo, nosso Senhor'.

Mas nós nos regozijamos, em caminhar de acordo com a aliança da graça, no amor santo e obediência feliz. Nós nos regozijamos em saber que, 'sendo justificados pela sua graça', nós não 'recebemos a graça de Deus em vão': que Deus, tendo livremente (não por causa de nosso desejo e realizações, mas através do sangue do Cordeiro) nos reconciliado para si mesmo, nós cumprimos, nas forças que ele nos tem dado, o desejo de seus mandamentos. 'Ele nos tem dado coragem na guerra', e estamos felizes de 'lutar a boa luta da fé'. Nós nos regozijamos, através dele, que vive em nossos corações pela fé, para que 'nos agarremos à vida eterna'. Este é o nosso regozijo, o que nosso 'Pai opera até aqui', de modo que (não pela nossa força e sabedoria, mas através do poder de seu Espírito, livremente dado em Jesus Cristo,) nós também operamos as obras de Deus. E ele pode operar em nós o que quer que seja agradável a seus olhos! E a quem seja dado todo louvor para sempre e sempre!

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